Virtual x real
Outro dia um aluno, interessado em ampliar sua compreensão a respeito do que é virtual, me perguntou se um anjo é virtual. Pergunta inesperada, exigia reflexão. Entregando-me ao fluxo do pensamento, fui lhe respondendo à medida do que me vinha à mente. Primeiro é preciso compreender que o virtual, por definição, é potencial, passível de vir a se manifestar fisicamente, de ganhar concretude real. Pense na relação entre a virtualidade da palavra e a realidade da coisa por ela nomeada. O significado é virtual, o objeto é real. Do mesmo modo, uma cédula monetária é real; o valor, virtual. A cédula é um título de crédito ao portador, e tem seu valor determinado pelas relações de troca: hoje vale tanto, amanhã nem isso. Se dólar, mais ou menos.
A relação entre o virtual e o real recupera as preocupações dos filósofos entre ato x potência, o caminho entre a virtualidade da palavra e a coisa concreta, valor de troca x valor de venda, significante x significado, a abstração de conceitos como o de poesia versus sua objetificação num poema, a doença x o doente, língua x fala, etc., etc.
Mas retomando a pergunta que originou esta reflexão, se um anjo é virtual, respondi ao aluno: se existem, de fato, os anjos, o que se nos parece ser possível apenas numa dimensão imaterial, incorpórea, etérea, espiritual, enfim, eles serão, por necessidade de sua natureza, reais. E a inexorável conclusão é a de que apenas não os percebemos, pelo menos não com as costumeiras faculdades sensoriais. E deveríamos ver com alguma admissão de verdade as afirmações daqueles que afirmam poderem vê-los. De onde, também, supormos que, analogamente aos demais sentidos, possivelmente se trata de uma faculdade cada vez mais presente entre as comuns faculdades sensoriais da maioria das pessoas. Assim, em os anjos existindo, para aqueles que dizem percebê-los (e aqui estamos supondo que de fato os percebem), os anjos são reais; para todos os demais, são e estão virtuais, havendo, pois, a possibilidade de deixar de sê-lo, quando (e se…) os perceberem.
E aqui cabe propor a existência de graus de virtualidade, já que se pode admitir a maior ou menor proximidade entre as duas esferas: virtual e real. Estamos pensando, por exemplo, na relação entre o valor de uma moeda virtual versus o valor de uma moeda de papel. A concretude desta última não lhe garante maior valor, virtual, que a virtualidade da primeira. Assim, também, cabe postular que uma emoção é mais virtual que uma sensação, que uma lei é mais virtual que sua aplicação, que uma intenção é virtual e sua concretização a retira dessa condição, que um pecado se dá por pensamento, palavras e obras, que uma injúria pode se tornar um crime, que uma palavra encerra significados virtuais em via de se tornarem menos virtuais, que a vontade é a potencialidade das potencialidade, e assim por diante, que querer fazer é uma vontade em busca de uma manifestação concreta, física, etc., etc.
Finalizando, não obstante a crença de que tudo se resume a crenças, cremos existir apenas uma não-crença: a de que existimos.
Por hoje, cartesianamente, cogito ergo sum, i.e., penso, logo existo; hoje, penso… logo… existo…
