IGNORÂNCIA FELIZ
Estive recentemente na montanha Condor Blanco no sul do Chile. A organização de mesmo nome levava a efeito várias atividades que, embora qualifique de neoxamanismo, são hoje realizadas sob o epíteto “Kin Forest”, isso porque, segundo atestam alguns dos integrantes mais antigos, aquele termo sofreu ataques e achaques.
Razões à parte, em dado momento ouvíamos o sincero relato de um dos aspirantes a xamã, sincero porém equivocado. Narrava ele a história do Papai Noel, que ouvira de pitoresca e espalhafatosa personagem televisiva, cuja imagem colorida e literalmente repleta de fantasia bem se coadunava com o pitoresco relato.
Sucintamente, tratava-se de um caçador que sai ao encalço de um níveo urso polar e, após matá-lo, veste a branca pele demarcada pelo rubro sangue do animal. A história “xamânica” provocou suspiros em ouvintes ali presentes, em sinceras manifestações de um “insight” artificialmente provocado.
Confesso que no momento quase também me deixei integrar na emoção coletiva, mas meu crítico senso acadêmico me impediu. Cheguei mesmo de início a entregar minha adesão, pela lembrança da poética asserção: “verdade é o que faz bem para o seu coração”. Lembrei também da pertinente contraposição: “você quer ter razão ou quer ser feliz”?
Finda a narrativa e debandado o grupo, fui ter com o dirigente, e disse-lhe: não sei o que você vai fazer com isso, mas você precisa conhecer a verdadeira história. Contei-lhe então sobre Nicolau, personagem que a hagiografia católico-cristã o denomina São, São Nicolau. Observei-lhe ainda que o inglês contemporâneo o cognomina a figura dele decorrente de Santa Claus, em evidente redução do nome original. Expus-lhe igualmente as manipulações do marketing que reconfiguraram o cerúleo manto do personagem histórico e transformaram nas rubras vestes do personagem da mídia, para se coadunar com as tradicionais cores de famoso refrigerante.
Ocorreu-me então a velha questão da Filosofia: os fins justificam os meios? Estavam todos felizes (fim), em decorrência de um relato falso (meio)? Lembrei também do poeta libanês Gibran Khalil Gibran, que cria este diálogo entre dois personagens:
– Se você vir um escravo dormindo, não o acorde: ele pode estar sonhando com a liberdade.
O outro responde:
– Se você vir um escravo dormindo, acorde-o e lhe fale de liberdade.
Dei-me então conta de que era ignorância gerando ignorância, ainda que a ingenuidade da primeira corroborasse a inocência da segunda. Felicidade sim, mas a preço de uma mentira? Mentirinha branca, inconsequente, inofensiva… Lembrei também de Sathia Sai Baba, que dizia: nunca fale a verdade… (e completava…) sem amor.
Tenho ainda muitas dúvidas. A mentira ignorante mas eficiente que trouxe lampejos de felicidade. Ah…! o Fernando Pessoa que disse: se você quer enganar alguém por meio de um mensageiro, engane primeiro o mensageiro. Somos todos mensageiros? Dou-me conta de que a ignorância é péssima mensageira. Pergunto-me: será preferível uma mentira que cure a uma verdade que machuque? Não será essa mesma pergunta uma falácia, i.e., uma mentira?
Concluímos, então, que as mentiras mais verdadeiras e as verdades mais mentirosas, que mexem com nossos sonhos mais acalentados e nossos temores mais profundos, se aglutinam magistralmente naquilo que chamamos de arte, a verdadeira arte, misteriosa, intuitiva, plena.
Por hoje é só.
