sobreviver

Outro dia fiquei pensando se grande parte dos males do mundo não decorrem da deformação do instinto de sobrevivência. O Houaiss diz que sobreviver significa “permanecer vivo (após a morte de)”, “continuar a existir depois de (algo)”, acepções que apontam para a suplantação da morte pelo prolongamento da vida. Em outras palavras, matar a morte com o excesso de vida, ou de elementos que parecem garantir isso.
Fiquei pensando também no paradoxo que é viver, já que implica em morrer, e, ainda, que o grande lance da vida é fazer as pazes com a nossa morte, como o faziam os poetas simbolistas, mediante um enfoque transcendental das coisas. E também na relação (in)consciente entre amor/vida, amor/morte, já que amar é também morrer para si e em si e viver para o outro e no outro, e, com isso mesmo, realizar um alter ego, um “outreu”, um ele mais eu, um eleu, numa recuperação dos primórdios da percepção que tem a criança de si mesma, como um “ele”.
Pensei ainda que o universo, em sua economia cósmica (ia dizer universal), não quer perder ninguém, e isso dá algum sentido ao absurdo da existência. E aqui entra em questão a importância/desimportância maior ou menor que alguém/ninguém tem ou não tem. Vem ainda à mente o que Osho dizia/disse: todo medo é, em última instância, o medo da morte; e que, se perdermos o medo da morte, perderemos todos os outros medos.
Para terminar/iniciar, um poeminha:
escatologia
vista vazia
voz lerda
o coração cheio de perda
a alma rota
encontrando a rota
erma
por onde se perde
tudo o que se herda.
