NÓ GÓRDIO
Acordei Hoje de manhã com as palavras “nó górdio” reverberando na cabeça. Sonho, imaginação, raciocínio…? Não mais sendo na atualidade (e na atual idade) o Guardião absoluto dos guardados na minha memória, devo confessar que não me lembro onde ouvi ou vi essas palavras, e chego mesmo a imaginar origens outras que não de Orígenes e gêneses que tais. Existiria o tal “górdio”? Quem ou o que seria? “Nó górdio” seria um chiste do inconsciente me dizendo, não nó górdio, mas um “no” a gordinho, “no” a gordura, “no” a “gordilho”…? Azeites e manteigas e delícias demais na (falta de…) dieta?
Lembrando que a própria palavra expressão significa “pressão para fora”, fui pesquisar. Descobri (ou confirmei) que existe, efetivamente, a expressão nó górdio. Mas o que estaria meu inconsciente querendo me pressionar para fora?
Corri e me socorri do Dicionário, do Houaiss. Diz ele: adjetivo, relativo ou pertencente a Górdio, rei lendário da Frígia, antiga região da Ásia Menor (atual Turquia). A lenda é interessante. Górdio teria sido um camponês que, ao ter entrado na cidade num carro de bois, cumpria uma profecia e, assim, tornava-se o prenunciado rei. Como marco do evento, o agora rei Górdio amarrara a carroça numa coluna do templo de Zeus. O nó seria tão difícil de desatar, que quem o conseguisse se tornaria o novo rei. Diz ainda a lenda que Alexandre o Grande simplesmente desembainhou sua espada e, num só golpe, desfez o nó. E nó górdio passou a significar um problema que, parecendo insolúvel à primeira vista, se revela de fácil solução pelo uso de raciocínios criativos e inuspeitos.
Lembrei-me então do filme O Enigma de Kaspar Hauser, designação lusitana do título alemão “Jeder für sich und Gott gegen alle”, i.e., “cada um por si e Deus contra todos”. Kaspar Hauser era um jovem que “apareceu” de repente numa pequena cidade alemã, abandonado por seu suposto tutor, que o criara, a mando de uma instância superior, acorrentado num frio e fétido porão (adjetivos por minha conta). No filme, baseado em história real, o diretor Werner Herzog enfoca a questão do reino da palavra e o reino das coisas, tema que há muito tem interessado poetas, escritores e linguistas, como Drummond, Foucault e Noam Chomsky, por exemplo. Não tendo a experiência do mundo intermediada pelas palavras, como amiúde acontece com a maioria das pessoas, o raciocínio de Hauser não sofre essa interferência.
Em determinada altura da narrativa, o jovem, de cuja educação se encarregara o conselho municipal, é instado a resolver o seguinte problema:
Havia numa região duas cidades. A população total de uma delas compunha-se de indivíduos que sempre mentiam; a outra, de indivíduos que só falavam a verdade.
Um peregrino caminha em direção a elas, e em dado momento a estrada se bifurca. Nesse instante percebe ele um indivíduo se aproximando, e para diante dele. O conselho municipal propõe, então, a questão: qual e única pergunta pode ser feita ao tal indivíduo, de modo que sua resposta revele de qual cidade ele está vindo, se dos mentirosos ou da outra.
A resposta pretendida é um tanto complexa, uma verdadeira preciosidade de raciocínio. No entanto, Hauser, para a incredulidade dos interlocutores, afirma que a resposta é bem fácil. E diz, eu simplesmente perguntaria: o senhor é um jacaré?
A narrativa não deixa de ter seu matiz humorístico, já que o rebuscado raciocínio adulto esboroa numa singela indagação de um ser não contaminado pelos criadores e, pior, maximizadores de problema.
Fiquei então pensando o que de tão simples minha mente complica, complexifica, mente, enfim. Lembrei-me então do excelente livro do Osho, “no mind”, que vou reler imediatamente. E sei que, sendo a mente mentirosa, é deixar a mente de lado e ficar só com a rosa.
Por hoje é sol.
A sombra e os aliados negativos
A SOMBRA E OS ALIADOS NEGATIVOS
Falar em “aliados negativos” é um contrassenso (íamos dizer disparate, diz para-te). Isso porque, como adjetivo ou substantivo, indica “aquele que se liga a outro por aliança, tratado ou pacto, para defender a mesma causa ou atacar o mesmo inimigo; partidário, sequaz, cúmplice”. Essas acepções, tirâmo-las do Dicionário Houaiss, que as completa, mencionando o diacronismo (i.e., significado antigo): parente por afinidade.
Essa introdução serve de preâmbulo ao propósito de nosso presente texto ora em andamento, um pretexto, um pré-texto. Explicitamente: abordar um tema que tem passado ao largo das vistas e das penas de tantos quantos têm se dedicado ao tema aliados mas que, compreensível e compreensivamente, têm se esquivado ao que Jung trata de Arquétipo da Sombra.
Sucintamente, a Sombra é o lado obscuro de nossa personalidade total, nosso eu reprimido, a parte do eu que a civilização e a cultura constrangeram e constringiram, a religião de índole maniqueísta qualificou de demoníaco ou maligno. Neste exato momento em que escrevemos damo-nos conta de que, em maligno, subjaz magno: maligno, percepção que certamente Freud qualificaria de “lapso de linguagem” ou “chiste”. Freudismos à parte…, voltemos a Jung.
O principal discípulo do pai da psicanálise e, depois, seu principal desertor, formulou a Teoria dos Arquétipos, entre os quais o Self, a Persona e a Sombra. Nosso interesse decorre da constatação de que luz e trevas são inextricáveis. Parafraseando Jung, se nos esquivamos da sombra, somos confrontados por um sermão de domingo na TV, por nossa esposa ou pela Receita Federal. O chiste de Jung subentende a onipresença desse arquétipo em nossas labutas cotidianas, que aqui e ali consegue transparecer em meio a nossas atitudes e comportamentos reprimidos.
Em outras palavras, a Sombra congrega sentimentos e pensamentos que não aceitamos, aquilo que não queremos ser e que, por isso mesmo, projetamos, enxergamos nos outros. Como arquétipo, a Sombra é uma personificação do mal, uma representação coletiva daquilo que a cultura reprimiu e reprime, havendo, porém, uma expressão individual desse Arquétipo. Como tal, esse arquétipo se manifesta em nossos sonhos, quando a censura do consciente é posta de lado, quando rimos de algum chiste ou piada tendenciosa. Já se disse alhures que o humor é um modo que a lucidez de uns tantos desenvolveu para podermos lidar com a Sombra. Somos gratos à graça que esses tantos não nos permitiram tornarmo-nos desgraçado. Grato por hoje.
Mais poemínimos
estimulado e estimado por uma amiga, resolvi a intriga: entregar outros poemínimos. ei-los:
poematéria
o que é que o Mestre via:
a Mater ou a Matéria
quando olhava pra Maria?
=.=
meio sem jeito
bem te ajeito no meio do peito
e todo me ajeito
;-.-
a solução nem sempre está no soluço
às vezes ouço o sol
às vezes o recurso é fazer um curso de urso
=.=
todo mundo tem do mundo a vista que o mundo alcança
.-.-
o vencedor
primeiro
vence a dor
.-
Limpo da cabeça aos pés
dá cabeça aos pés
O vate vaticina: poeta – profeta
.-.-
caminhar com a amada
caminhada amada
mais nada
.-.-
falo fala
sua boquinha cabe
no abraço dos meus beijos
-.-
solidão
sob o céu de prata
na rua, fitando a lua
uiva o vira-lata
.-.-
solidão
eu na minha
você na sua
entre nós
o buraco da lua
.-.-.-
your word´s a sword
.-.-
METAPOEMA
pro poeta
toda palavra é meta
é rito
é porta aberta pro infinito…
.-.-
METAFÍSICA
voltando de onde não fui
fico no mesmo lugar a que parti
.-.
em poesia
sede breve
poetar com água poetável
só se mata de leve
.-.-
a brancura
poeta
não polua
aspire-lhe o pó
e deixe só lua
;=;=
por hoje é sol
Poemínimos
hoje resolvi oferecer uns poemínimos à degustação de quem os possa apreciar
ELOQUÊNCIA
no meu canto
tanto falo
quanto calo
porencanto
AMBIQUALDADE
somos tão ambos
cada qual
que estamos mais pra
ambigualdade
HAICAI
doente e a esmo
bate o coração do vate
mas bate assim mesmo
AUSÊNCIA
na cadeira vazia
o balanço de ontem
DRUMMONDEANDO
no meio do caminho
pedra eterniza
caminhada que não houve
DILERRIMA
expludo
ou fico mudo
quando me desiludo
de tudo?
Amor e humor/ hamor e umor
AMOR E HUMOR
Ao longo dos séculos o cristianismo católico tem demonizado o humor, em cuja vertente irreverente se dessacralizam personalidades que merecem admiração, veneração e, pois, respeito. Daí o preconceito contra a alegria, refletido em adágios como “muito riso, pouco siso”, amiúde associada a leviandade, tolice, falta de juízo. Daí também a noção de que a sisudez (de siso) é sinônimo de seriedade, quando na maioria das vezes é apenas expressão do neurótico medo de soltar as amarras a cuja tirania submetem tua liberdade, já que o riso solta, liberta, libera. Na contramão, há o adágio “rir é o melhor remédio”, o que talvez aponte para o papel terapêutico do riso, uso que tem sido introduzido no tratamento de crianças hospitalizadas. Diga-se ainda que o riso devolve a lucidez perdida, e que, ao contrário do que se é levado a crer, quanto mais desperta espiritualmente a pessoa, tanto maior humor apresentará. Sobejam exemplos dos grandes luminares da humanidade: Jesus, Buda, Osho, etc. O bom humor de Jesus é escamoteado por aqueles que se apropriaram de seus ensinamentos, com o intuito de submeter, condicionar ou, drasticamente, escravizar. Daí ter sido a alegria banida dos drásticos espaços eclesiásticos, não plásticos nem elásticos. Obviamente, cremos, a referência é ao humor solidário, não sarcástico. Exemplo do espírito humorístico de Cristo Jesus está no trocadilho que fez com o nome de Pedro. Como Pedro significa, em latim, justamente “pedra”, diz o Mestre que faria de Pedro a pedra fundamental de sua igreja. Exemplos análogos podem ser colhidos da vida de Buda e Osho. É sabido que Gautama proibia seus discípulos de fazerem milagres. Consta que um deles, em decorrência da meditação a que se entregara, começou a levitar, e Buda disse: continue meditando que isso passa. De Osho são incontáveis os exemplos registrados pelos discípulos. E aqui temos o humor em sua função de didática espiritual e espiritualizante, já que o mestre indiano inseria sempre em sua fala oportunas expressões de humor (piadas, chistes, trocadilhos…), as quais sempre vinham ao encontro de suas exposições e auxiliavam na compreensão intuitiva do que ele pretendia comunicar. E a eficiência da técnica fica confirmada no riso produzido, já que a maior prova de que alguém compreendeu um texto pela extrapolação da fria materialidade da palavra é quando consegue rir pela apreensão intuitiva e inextricável do sentido.
E assim como o amor o humor tem um mistério. Não obstante o quase atávico interesse que despertam, estão longe de ser compreendidos. E sua relação não se configura apenas na materialidade da rima, mas na matéria-prima de que se constituem, já que ambos liberam e libertam, são sagrados, transcendentes, pelo menos levam à extrapolação dos costumeiros limites a que estamos sujeitos na faina cotidiana.
Mais especificamente sobre o humor, o efeito que dele sempre se espera, o riso, é antevéspera do sagrado: primeiro vem o riso, a seguir o silêncio, e então o sagrado. O riso provoca uma espécie de higiene espiritual e nos faz transcender nossas crenças. Estamos nos referindo ao riso solidário, não ao tendencioso, embora a maior densidade deste também tenha o seu lugar. Finalmente, três obras inaugurais que discorrem sobre o humor: “O chiste e suas relações com o inconsciente”, do psicanalista Siegmund Freud, “Os humores da língua”, do linguista Sirio Possenti, e “O riso”, do filósofo francês Henri Bergson. A todos boa leitura; o bom riso fica para depois.
Carma: pode ser vendido?
CARMA, PODE SER VENDIDO?
Já se tornou proverbial afirmar que o mundo acolhe muito bem os ingênuos. A ingenuidade ou inocência, aqui tomadas como sinônimas, não é senão outra expressão para a falta de consciência. O grande lance do universo é produzir consciência; no plano humano, autoconsciência e, no plano mais amplo, a chamada consciência cósmica, que aqui grafamos em minúscula para manter graficamente a implícita relação que a última guarda com a primeira. Diga-se ainda que, no plano humano, da consciência em acepção de “percepção” decorre a consciência em acepção de “senso moral”, este ainda em desenvolvimento e, portanto, ainda não muito consolidado e generalizado, a lembrarmos que o substantivo “moral” advém de “moralis”, i.e., “relativo aos costumes”. Assim é que, sendo os costumes sócio-históricos, atrelados, portanto, ao tempo e espaço, corroboram a noção de inexistir uma moral universal, ou seja, que se possa aplicar a toda a humanidade. De onde também a asserção de que Deus é amoral (e não imoral), e nossa criatividade linguística nos leva a enxergar amor em amoral, percepção não de todo despropositada já que, como dizem cosmogonias da maioria das religiões: “Deus é amor”; “o amor é a lei de Deus”; “é por meio do amor que Deus governa o universo”, e assim por diante. Aqui talvez devêssemos usar a chamada “maiúscula alegorizante”, a denotar a supremacia desse componente do universo, maior que a sua expressão humana. Não o fazemos por nos lembrarmos do dizer de Agostinho: “quando o homem chega ao extremo do humano, atinge o divino”; o que nos faz questionar a pertinência da expressão “amor incondicional”, algo pleonástica, a nos referirmos ao propalado “amor verdadeiro”, discussão que extrapola os limites a que ora nos cingimos e fica, pois, para outra ocasião. (En passant, ocorre-nos a contraposição “amor humano” versus “amor divino”.)
Digressões à parte, voltemos a nosso tema: carma. Contrariamente ao uso popular do termo, não se trata de castigo, punição, vingança…, mas de compensação, volta ao equilíbrio, “justiça” cósmica, etc. A expressão católico-cristã dos pecados por “pensamentos, palavras e obras” vem em nosso auxílio. A expressão seria melhor formulada em “intenções, emoções e ações”. (Lembre-se que “emoção” vem do latim “ex-movere”, i.e., “mover para fora”, ou seja, aquilo que vem de dentro e sai para fora, e “ação” é a melhor tradução para o substantivo sânscrito “carma”; grafias à parte). Efetivamente, a injunção católico-cristã pode ser tomada como pertinente ao carma e sua aquisição. Entretanto, refere-se apenas à visão negativa do carma, uma vez que aquilo de bom que acontece conosco também é carma. Há quem entenda o “carma positivo” como “darma”, e nos perguntamos em que medida a grafia e a fonética do substantivo os têm impertinentemente aproximado.
Esta matéria, porém, não será, talvez, senão pecado por pensamentos, palavras e obras, ou, como imodestamente o dissemos, “intenções, emoções e ações”. Pretende responder (íamos dizer, por força de ofício, “corrigir”) a equívocos que ouvimos na montanha Condor Blanco: de que pode-se vender (e, portanto, comprar) o carma; de que um simples corte de cabelo pode cortar o carma; de que o carma é tão-somente individual.
Em primeiro lugar, o carma é principalmente coletivo, i.e., atinente a grupos das mais variadas dimensões. O principal deles é a família (biológica ou de criação), a de que procedemos e a que de nós procede. Das interações entre as “intenções, emoções e ações” do grupo familiar decorrem as experiências a que o grupo e seus componentes estão sujeitos. Depreende-se disso que os carmas estão entrelaçados, e o dos pais afeta o dos filhos, e o destes se submete ao daqueles. Por amor, ambas as gerações assumem experiências recíprocas, e, contrariamente ao que se propala por aí, só o amor é caminho, não a dor. Esta advém das inadequações aos ditames daquele. Obviamente a referência não é à dor física.
Isso leva à conclusão de que o Supremo Governante não é um um supremo comerciante, nem um juiz aleatório que decide arbitrariamente o destino de seus fregueses humanos. Essa nossa irreverência tem algo de ironia e arrogância intelectual; seja-nos perdoada.
O outro equívoco foi ouvido de uns tantos presentes na montanha e que recorriam ao corte de cabelo “xamânico” (não o cabelo, mas o corte), oferecido por uma índia (ou descendente de…) que reside há anos na montanha. Confesso que aproveitei a oportunidade para me submeter à arte e técnica da cabeleireira, também para ver onde é que “o bicho pegava”, pois havia anos pensava em desbastar minhas (oh…!) madeixas. Saí não de todo insatisfeito com o corte, não com as observações “xamânicas”. Mas dei-me por satisfeito com os poucos dólares ali aplicados. Em tempo, o absurdo de que a indígena cabeleireira cortava o carma junto com o corte de cabelo foi ouvido depois do corte. Ouvi da índia “estás un poco solito, né, Adám”, o que facilmente se depreende de minhas atitudes não exatamente anticelibatárias, mas certamente gregárias.
Finalizando, lembramos a humorística asserção atribuída a Sócrates: não se preocupe: se você casar ou não casar, vai se arrepender do mesmo jeito.
Por hoje é só, pessoal – that’s all folks.
Verdade mentirosa
IGNORÂNCIA FELIZ
Estive recentemente na montanha Condor Blanco no sul do Chile. A organização de mesmo nome levava a efeito várias atividades que, embora qualifique de neoxamanismo, são hoje realizadas sob o epíteto “Kin Forest”, isso porque, segundo atestam alguns dos integrantes mais antigos, aquele termo sofreu ataques e achaques.
Razões à parte, em dado momento ouvíamos o sincero relato de um dos aspirantes a xamã, sincero porém equivocado. Narrava ele a história do Papai Noel, que ouvira de pitoresca e espalhafatosa personagem televisiva, cuja imagem colorida e literalmente repleta de fantasia bem se coadunava com o pitoresco relato.
Sucintamente, tratava-se de um caçador que sai ao encalço de um níveo urso polar e, após matá-lo, veste a branca pele demarcada pelo rubro sangue do animal. A história “xamânica” provocou suspiros em ouvintes ali presentes, em sinceras manifestações de um “insight” artificialmente provocado.
Confesso que no momento quase também me deixei integrar na emoção coletiva, mas meu crítico senso acadêmico me impediu. Cheguei mesmo de início a entregar minha adesão, pela lembrança da poética asserção: “verdade é o que faz bem para o seu coração”. Lembrei também da pertinente contraposição: “você quer ter razão ou quer ser feliz”?
Finda a narrativa e debandado o grupo, fui ter com o dirigente, e disse-lhe: não sei o que você vai fazer com isso, mas você precisa conhecer a verdadeira história. Contei-lhe então sobre Nicolau, personagem que a hagiografia católico-cristã o denomina São, São Nicolau. Observei-lhe ainda que o inglês contemporâneo o cognomina a figura dele decorrente de Santa Claus, em evidente redução do nome original. Expus-lhe igualmente as manipulações do marketing que reconfiguraram o cerúleo manto do personagem histórico e transformaram nas rubras vestes do personagem da mídia, para se coadunar com as tradicionais cores de famoso refrigerante.
Ocorreu-me então a velha questão da Filosofia: os fins justificam os meios? Estavam todos felizes (fim), em decorrência de um relato falso (meio)? Lembrei também do poeta libanês Gibran Khalil Gibran, que cria este diálogo entre dois personagens:
– Se você vir um escravo dormindo, não o acorde: ele pode estar sonhando com a liberdade.
O outro responde:
– Se você vir um escravo dormindo, acorde-o e lhe fale de liberdade.
Dei-me então conta de que era ignorância gerando ignorância, ainda que a ingenuidade da primeira corroborasse a inocência da segunda. Felicidade sim, mas a preço de uma mentira? Mentirinha branca, inconsequente, inofensiva… Lembrei também de Sathia Sai Baba, que dizia: nunca fale a verdade… (e completava…) sem amor.
Tenho ainda muitas dúvidas. A mentira ignorante mas eficiente que trouxe lampejos de felicidade. Ah…! o Fernando Pessoa que disse: se você quer enganar alguém por meio de um mensageiro, engane primeiro o mensageiro. Somos todos mensageiros? Dou-me conta de que a ignorância é péssima mensageira. Pergunto-me: será preferível uma mentira que cure a uma verdade que machuque? Não será essa mesma pergunta uma falácia, i.e., uma mentira?
Concluímos, então, que as mentiras mais verdadeiras e as verdades mais mentirosas, que mexem com nossos sonhos mais acalentados e nossos temores mais profundos, se aglutinam magistralmente naquilo que chamamos de arte, a verdadeira arte, misteriosa, intuitiva, plena.
Por hoje é só.
Com o perdão da licença poética
A arte é, por excelência, o espaço da transgressão. Essa afirmação, tão de chofre, tão taxativa, tão de início, pressupõe uma dada conceituação, primeiro, de arte; segundo, de transgressão: que arte admite qual transgressão, qual transgressão se coaduna a qual arte. A questão aqui é, de fato, o conflito ou tensão entre a norma e a forma; esta, ao se impor por necessidade inexorável de sua própria natureza, exigirá que aquela a ela se conforme, quebrando, para tanto, alguns conceitos e anacronismos. Já a primeira, por sua índole uniformizadora, olhará de soslaio os arroubos da segunda; afinal, as forças de conservação não admitem com facilidade as forças de transformação, à semelhança de uma vovozinha que torna sua vozinha um vozeirão a vociferar regras e contrarregras, já que tem a seu favor a legitimada legitimação da legítima legitimidade. (Ou nem tanto…?!) Quando sua voz é contrariada pelas exceções que se revelam adequadas e pertinentes, esconde sua contrariedade na expressão “licença poética”, como a ser forçada a se conformar, inexoravelmente, a instâncias em que “o erro é cabível” (íamos dizer: “melhor”). De fato, cabe indagar quem deve fazer concessão a quem: a forma à norma, ou esta àquela?
Assinale-se, não é de hoje que se busca, com algum sucesso, a distinção e/ou parentesco entre a norma e a forma, questão que se sobressai quando se trata do texto poético, em que fica, na verdade, diluída a dicotomia forma x conteúdo, contrariamente ao que se tem propalado por aqueles que só conseguem ver nas transgressões da arte um pouco mais que a (i)legitimidade da própria transgressão.
Se a arte é, por excelência, o espaço da transgressão, assinale-se que a referência é à transgressão tão necessária e pertinente, que, sem ela, não há arte. Obviamente, desnecessário dizer, nem toda arte é transgressora, como nem toda transgressão (verdade das verdades…) é artística. Ao afirmarmos isso, temos em mente a oposição norma x forma, em que, nas instâncias em que prevalece absoluta e inconteste a primeira, a segunda perece, ou melhor, nem chega a nascer. Em maioria, o prevalecimento da norma se justifica pelas práticas que, resistindo ao tempo, têm por isso mesmo legitimada sua razão de ser, já que servem para nortear procedimentos e condutas. Entretanto, estão aí os artistas, entre os quais os escritores e poetas, que fazem um aproveitamento estético da transgressão, i.e., da forma, e os defensores da norma veem-se na contingência de sair à cata de justificativas para a transgressão da forma, na percepção de que aqui e ali ela é melhor, constatação que levou à criação da expressão licença poética, com que se pretende justificar significados surpreendentes, que suplantam o chamado horizonte de expectativa.
Sendo a arte, no caso o poema, por excelência o espaço da transgressão, pode-se, por outro lado, postular que o poema é um microuniverso que determina suas próprias leis, de onde concluir-se que o “erro”, dentro do poema, é um acerto, está correto, é necessário, se veicular a (in)formação estética.
Vejamos, pois, alguns exemplos de transgressão. O primeiro é do poeta curitibano Paulo Leminski:
Haja
Hoje p/tanto
Hontem
A norma ortográfica vigente determina que o advérbio ontem não seja grafado com H, hontem, forma arcaica que já vigeu no idioma e que, pelo uso, passou a ser grafado sem o h inicial. Observe-se, ainda, que todo o poema se estrutura nesse H arcaico, hoje transgressor, na inversão norma “hontem”, hoje norma “ontem”, para uma transgressão reversiva, i.e., o que ontem era norma deixou de o ser hoje, e a transgressão de hoje é uma volta à forma antiga. Desse modo, se corrigirmos esse advérbio, retirando-lhe o h, todo o poema rui (ah rui barbosa), pela falta de sua pedra-letra fundamental. Visualmente falando, os três hhh formam uma coluna, que não se sustenta sem o “erro” ortográfico. Veja-se ainda o protesto do poeta, que assinala a presença excessiva e assoberbante do passado e a necessidade de transformação, modificação, renovação. Com efeito, o hoje é apenas um (1) em relação ao infindável número de ontens, e aqui, neste momento mesmo em que estamos redigindo este texto, damo-nos conta de que o corretor automático do Word assinala como erro a mais absoluta necessidade de pluralizarmos o advérbio ontem, aqui uma exceção. Observe-se também o tom de irritação que o poeta consegue imprimir ao poema, pelo uso do verbo haver, ecoando os bordões “haja dia”, “haja paciência”, “haja…”. Ademais, considere-se o anacronismo do h no início de palavras no português contemporâneo, desde que só atende a questões de ordem etimológica e não de fonologia, i.e., escreve-se mas não se pronuncia, ou seja, “não serve para nada”, o que confirmaria o tom de irritação com anacronismos e obsolescências do autor de “Catatau”.
Ainda com Leminski, este nosso lúcido discípulo zen de Bashô, registra:
meu probleima
só dói
quando queima
Não se trata, aqui, do puro e simples manuseio verbal que, ao transformar o substantivo problema em probleima, cria uma rima até então inexistente. Com probleima, o poeta problematiza essa mesma palavra, e dá, no dizer da poética contemporânea, alguma concretude ao “problema”, segundo a asserção de que o poema, mais do que convencer, quer seduzir e, mais do que seduzir, quer ser, quer se tornar o objeto nomeado, quer presentificar o objeto ausente, a nos lembrarmos de Haroldo de Campos, que assinala ser o poema autorreferencial. Assim, o neologismo “probleima” confirma a existência e resistência do problema, em diálogo com outro poema do autor de “Distraídos Venceremos”: na rua/ sem resistir/ me chamam/ volto a existir.
Outro exemplo que nos ocorre, não obstante o fato de ter sido enunciado originalmente em outro idioma (milenar), e em certa medida confirmar o axioma “tradutore traditore”, i.e., “tradutor: traidor”, sintetizado em “traduzir é trair”, é o que teria o Filho de Maria dito em pregação aos contemporâneos de Jerusalém: “Antes que Abraão fosse, eu sou”, ou “…existisse, eu existo”, etc. A quebra da lógica temporal, em que o presente não pode antecipar-se ao passado, leva à expectativa de que a frase fosse assim formulada: “Antes que Abraão fosse, eu era”, ou “Antes que Abraão existisse, eu existia”.
Todavia, os dois últimos enunciados deformam, mutilam, reduzem o significado pretendido, desde que, entrando no domínio do dogma e, pois, admitindo-se a gênese divina do mestre dos mestres, o que para nossos objetivos não vem agora ao caso, estaria ele exprimindo sua condição de eternidade, talvez melhor expressa como atemporalidade. Efetivamente, um ser eterno e que trouxesse essa consciência em sua autoconsciência, supomos, teria acesso in persona como tudo sendo agora à inexorabilidade do ontem, às evidências caleidoscópicas (o dicionário não registra esse adjetivo; deveríamos cambiar para “cambiantes”) do hoje e às virtuais possibilidades, probabilidades e concretudes do amanhã. Em outras palavras, o Logos (infeliz marca automobilística) é ontem, é hoje e é amanhã, numa mesma e presentificada presença, considerando-se a asserção de que, para um ser dessa magnitude, não existe passado nem futuro, só um eterno presente, de amplitude infinita.
Talvez dissesse o Bruxo do Cosme Velho: “é demasiada metafísica para um só professor”, em que, estabelecendo irônica relação entre a filosofia, ironicamente enunciada por um tenor desempregado, e a teologia, na paráfrase que faz de João, “no princípio era o verbo” (“no princípio era o dó”), talvez se antecipasse às interfaces que se podem estabelecer entre literatura, poesia, filosofia, religião.
Seja como for, a premissa fundamental que convém diante de um texto é a suposição de que o autor pretendeu significar, de que não sofreria de (com a permissão de Freud) afecções mentais, i.e., “não é louco”.[i]
.-.-
O crítico e poeta Affonso Romano de Santana, com a habitual eficiência verbal, consigna caso em que a forma serve como pretexto para o conteúdo. Com isso, traz à baila a dicotomia que o texto artístico, especificamente o poético, dissolve, obrigando à lúcida reflexão proposta por Ezra Pound de que “a forma é o conteúdo que vem à tona”, ou seja, o conteúdo que aparece.
O poema é sempre lúdico; quase sempre (…?) lúcido, mesmo quando se refere às maiores tragédias, não perde esse caráter. A sisudez lhe é estranha, e o solene engajamento está no poeta, não no poema. Se, como diz Foucault, “a palavra é uma violência que praticamos contra as coisas”, desde que a palavra deforma o objeto, entra em conflito com ele, mais esconde do que revela, o poema é um somatório de dizeres e desdizeres, que diz escondendo e esconde dizendo. É, como diz Ugo Friedrich, “um processo a respeito da linguagem, e não das próprias coisas”, de modo que, mesmo que mentiroso, jamais mente, e mesmo sendo sincero, sempre mente. Essa construção antitética traz, subjacente, a fetichização da linguagem, a adequada relação que se pode estabelecer entre o humor e a poesia, aquilo que se poderia exprimir com a asserção de que o poema não possui um estatuto jurídico, desde que nada prova, a não ser que, por ser autorreferencial, que se trata de poema. Assim, o texto poético seria uma espécie de ironização do fato, visto que, além de ser constituído do frio gume da palavra fria, sempre “colore a pílula”. Que-que-querelas à parte, palavras, elas à arte.
“Fica o dito pelo não dito”, mas se for o Bene dito bem dito e bendito, que fazer se não o prazer de com ele também dizer, di-ser?
Ele mesmo (gullar) responde: “é que só o que não se sabe é poesia”. “O poeta inventa / o que dizer / e que só / ao dizê-lo / vai saber”.
E aqui inserimos poema de nossa (pa)lavra:
a forma
conformada
vira norma
precisa, então,
ser transformada
A referência é à constante renovação que a arte vem sofrendo ao longo do tempo, na sucessão de tendências e contratendências. Vejam-se ainda estes exemplos:
expludo
ou fico mudo
quando me desiludo
de tudo?
…em que a transgressão, pelo acréscimo de um inexistente “expludo” em substituição ao gramatical “explodo”, se justifica pela necessidade da rima, a confirmar a própria explosão.
eloquência
no meu canto
tanto falo
quanto calo
porencanto
Aqui, o neologismo “porencanto” pretende aglutinar todos os possíveis significados, numa síntese de “porém canto”, “por encanto”, “por em canto”. Observem-se ainda as ambiguidades de “canto” (poema, música e espaço físico), “falo” (verbo e substantivo), e “calo” (idem).
Por hoje é só.
[i] A propósito, confira-se o que Foucault e Jung dizem a respeito. “Louco é aquele cujo discurso não é aceito” (Foucault). Jung assinala que a fala do “louco” faz sentido, sentido esse que precisa ser depreendido “de perto”, desde que, não integrando um código passível de leitura pela coletividade, os sentidos podem ser absolutamente originais e, portanto, só decifráveis mediante chaves que só seus enunciadores podem oferecer.
Condor blanco
Acabod voltar do Chile, de uma montanha perto da cidade de Pucon. Lá, todo ano, mormente de dez a fev, reúnem-se integrantes e simpatizantes de uma organização a que se deu o nome de Condor Blanco. Chamá-la de organização talvez não seja exato, já que ainda se encontra em processo formativo, com umas ramificações sem interconexões. A estas, chamam-nas escolas, com nomes bastante específicos e nada aleatórios, a exemplo de kinforest, kainapi, kaiwoman, etc.
O idioma se atolou-se
A piada é bem conhecida, mas não custa lembrá-la. Um amigo pergunta ao outro: qual é o correto: o carro se atolou ou o carro atolou-se? Responde o segundo: se foi a roda da frente, é se atolou; se foi a roda de trás, é atolou-se. Volta a perguntar o primeiro: e se foram as duas rodas?
– Aí não tem dúvida nenhuma, completa o segundo: é o carro se atolou-se.
De minha parte, espero não atolar-me, tanto no sentido acima, quanto no de tornar-me tolo. Isso porque a questão que proponho parecerá a ouvidos refinados cacofônica, e o é, com certeza. Como profissional das letras, sempre estou me deparando com questões interessantes. Desta vez, trata-se de legitimar uma construção que, não obstante pareça errada e apesar da cacofonia, ou seja, da desagradável sonoridade, está correta.
Como se trata de construção inusitada, cheguemos até ela por etapas.
Primeira etapa:
A frase interrogativa “A gente nasce poeta ou (a gente) se torna poeta?” equivale a “nasce-se poeta ou se se torna poeta?” – já que “a gente” tem função pronominal e está em lugar do índice de indeterminação do sujeito (o “se” de “nasce-se”). Observe-se a elipse de “a gente” na segunda ocorrência. Não se considerando a questão da colocação pronominal, a frase poderia ser assim construída:
Se nasce poeta ou se se torna poeta? – onde os dois “se(s)” de “se se torna” são, respectivamente, índice de indeterminação do sujeito e pronome do verbo pronominalizado tornar-se.
Vamos, então, à frase prometida:
Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, é questão de somenos importância.
Se nasce poeta ou se se torna poeta?
Sem levarmos em conta a questão de que pronomes átonos não iniciam frases no idioma culto, não é necessário, parece, argumentar sobre a propriedade da construção acima. Na frase “se(1) nasce poeta ou se(1) se(2) torna poeta?”, temos que “1” é índice de indeterminação do sujeito e “2”, pronome reflexivo do verbo pronominalizado, já que o verbo, aqui, é tornar-se. Complementando a frase em questão, arrematando-lhe o sentido, poderíamos dizer:
Se nasce poeta ou se se torna poeta. Não há uma terceira opção.
Ora, podemos acrescentar à frase acima a conjunção condicional, e ela ficaria assim: Se(1) se(2) nasce poeta ou se(1) se(2) se(3) torna poeta, é questão de somenos importância. Aqui temos que “1” é a conjunção condicional, “2” índice de indeterminação do sujeito e “3” pronome reflexivo do verbo pronominalizado.
DEMONSTRAÇÕES
A gente nasce poeta ou a gente se(2) torna poeta – onde “a gente” está no lugar de “se(1)”, como índice de indeterminação do sujeito. A mesma frase poderia ser escrita “a pessoa nasce poeta ou a pessoa se torna poeta?” e, com elipse, “a pessoa nasce poeta ou se torna poeta?”, e, ainda, com elipse anteposta, “a pessoa nasce ou se torna poeta?”.
Se a pessoa nasce poeta ou se a pessoa se torna poeta, é questão de somenos importância. Substituindo o sujeito semanticamente indeterminado (porém sintaticamente não) a pessoa pelo índice de indeterminação do sujeito, teremos: Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, frase melhor percebida nesta construção (canhestra, embora): se nasce-se poeta ou se se torna-se poeta…
1 – Se nasce poeta ou se se torna poeta?
2 – Se se nasce poeta ou se se se torna poeta, é questão secundária.
Numeremos os “se(s)” de 1 e 2:
1 – Se(1a) nasce poeta ou se(2a) se(3a) torna poeta?
2 – Se se(1b) nasce poeta ou se(2b) se(3b) se(4b) torna poeta, é questão secundária.
Facilmente se demonstra a propriedade das construções acima substituindo-se (2a) e (2b), índice de indeterminação do sujeito, pelo correspondente “a gente”, deste modo:
3 – A gente nasce poeta ou (a gente) se torna poeta?
4 – Se a gente nasce poeta ou se (a gente) se torna poeta, é questão secundária.
Ante a cacofonia dos três “se(s)”, poder-se-ia argumentar que o verbo tornar-se não admitiria a indeterminação do sujeito ou que o “se” de tornar-se atua como índice de indeterminação do sujeito. E essa afirmação estaria correta no caso de o verbo estar no infinitivo, na seguinte construção: Nascer poeta ou tornar-se poeta, eis a questão.
CONCLUSÃO INCONCLUSA
Esses trejeitos linguísticos estão aí como meros cacoetes de raciocínio. Exercícios da palavra. Amém.
