Os aliados não existem

Em meus textos aqui publicados, tenho procurado lhes conferir títulos provocantes que, conquanto nem sempre apontem para verdades incontestes, indicam caminhos da submissão a aprovação ou não de vários e variados testes. Para tanto, não nos furtamos à tentação de lançar mão de recursos linguísticos aqui e ali metatextuais, como o chiste, o trocadilho, jogos de palavra e jogos de espírito, e recursos fonéticos e fonológicos como rimas, aliterações, assonâncias, mesmo expondo-nos ao risco de arriscar a credibilidade de nosso texto. Isso deixamos à costumeira sisudez dos textos acadêmicos, empreitada que temos de enfrentar em nossa luta e labuta cotidiana, como profissional das letras e artes, na oscilação entre a forma e a norma. Recorremos, ainda, à criação de (neo)logismos, com “neo” entre parênteses a satisfazermos quem nos queira acusar de redundantes já que, aborrecidamente, “neo”, por significar novo, não admitiria o verbo criar. Afirmação algoz não isenta de algo de pedante autoafirmação. Seja-nos, pois, isso desculpado.
Assim, ao intitularmos este texto com: Os aliados não existem, estamos, em verdade, partindo da máxima cartesiana, “Cogito, ergo sum”, que, não obstante a comum tradução, “Penso, logo existo”, tem merecido a tradução mais adequada “Penso, logo sou”, sendo de rigor a distinção entre o manifesto existir e o virtual ser.
Assim é que nos sentimos autorizados a afirmar que os aliados não existem, não sem antes atentarmos para o necessário adendo: os aliados não existem; os aliados são. Em outras palavras, estando a existência desatrelada da essência, pode-se afirmar que os aliados são, isto é, se constituem na relação que estabelecem com o indivíduo, e tendo, pois, alguma independência em sua atuação a partir do inconsciente.

A motivação deste artigo adveio da dúvida que alguém manifestara sobre a existência dos aliados, em post que dizia, mais ou menos, “aqui está a prova de que os aliados existem”. Fiquei interessado pela necessidade de autoconvencimento da moça de quem procedia o referido post, e decidi escrever esta matéria e intitulá-la como o fiz, não obstante a não muito agradável suposição de que o título lembra o bordão de conhecido “parapsicólogo” de forte sotaque espanhol que a mídia televisiva ressuscitara dos insaudosos e insalubres idos da década de mil novecentos e…, desculpem-me, você tenta.

Os aliados, aqui, referem-se à denominação que expressões cosmogônicas e cosmológicas conferem às manifestações da constituição psicobiofísica do homem, expressões essas provenientes do xamanismo, visão de mundo de índole animista. Por hoje, aliás, aliados…

Absurdismos

ABSURDISMOS
Há absurdos tão absurdos, que são mais do que absurdos: são também abcegos e abmudos. Este absurdo, mesmo, de absurdizar o próprio substantivo absurdo. Mas o absurdo está na moda, é, mesmo, um modismo. Está tão na moda, que se poderia criar um movimento, escola, tendência à qual se daria, pertinentemente, o nome de Absurdismo, à semelhança de tantos ismos já passadiços, passados e mal-passados. Classicismo, neoclassicismo, romantismo, realismo, modernismo, racismo, homossexualismo, taylorismo, capitalismo, terrorismo… e ismos… e ismos… e ismos… Fora os esnobismos, estrangeirismos, alcoolismos, tabagismos, bairrismos, ateísmos, teologismos, que nos obrigam, a todos, a nos submeter a verdadeiros contorcionismos verbi-voco-visuais, com o devido crédito ao que disse o Pignatary (o Décio), ele também representante de um tal-ismo, o tal concretismo, não taoísmo. Em tempo: catolicismo, islamismo, budismo, etc., que querem seus adeptos sejam, não relativismos, mas absolutismos.
Mas nesse movimento Absurdismo encaixaríamos tudo o que encaixado não se deveria encaixar: menores abandonados, abandonismo; a indústria da fome, raquitismo; os irremediáveis remédios, a política etílica e sem ética, os inominados que têm nome porém são inomináveis e, pois, abomináveis, os nordestes destes que não me destes, sem chuva, uva nem luva, as estatísticas estáticas não extáticas, e tantas outras práticas que por ética não deveriam ser postas em prática.
Desse Absurdismo estariam ausentes verbalismos, linguismos, logismos e neologismos, misticismos e espiritualismos, tudo o que contribuísse para o disse-me-disse, não-disse me disse, mas disse. O dissídio entre a palavra e a lavra e a lavra e a larva. Ora direis ouvir… Melhor que ouvir é ouver, não ouvir ou ver. Ambos os dois conjuntamente juntos mutuamente unidos numa unidade de um só. Ora, pois. Ouvir estrelas… melhor ouvê-las, com o perdão do Bilac (o Olavo oliva).

Só com toda essa (e quisera mais que mera quimera) transgressão verbal talvez se possa insinuar o que nem à mente amente se insinua: o absurdo do absurdo que, talvez por isso mesmo, o desabsurdiza, id est, Reductio ad absurdum. Rest in peace, requiescat in pace, descansa em paz, meu rapaz. O que me lembra um poemínimo contestador, em homenagem a alguém que nem menção merece: posso dizer o que eu acho, meu rapaz: és capacho, não capaz. E quem o queira aplicar a quem não o queira, sinta-se autorizado. Deveras…
E aqui desfilam filiações, filias, iron men e ironias. Dinheiro na cueca, 51 milhões apartados em apertado apartamento, pasta só com um mísero 1% um por cento dessa cifra indecifrável, “eu não sabia que não saber não me isenta da pena de não saber”, o verdadeiro poder se refugia numa instância superior quando se lhe questionam ditos e ditames, personagens se despersonalizam por imersão num limbo amorfo de uma espécie de Personalidade Suprema, poder, enfim, que ante a inexorabilidade da morte pretende, sem poder superá-la, surpresá-la. Tanto barulho que deixou surdo o bagulho. Por hoje, arrulho.

Virtual x real

Virtual x real
Outro dia um aluno, interessado em ampliar sua compreensão a respeito do que é virtual, me perguntou se um anjo é virtual. Pergunta inesperada, exigia reflexão. Entregando-me ao fluxo do pensamento, fui lhe respondendo à medida do que me vinha à mente. Primeiro é preciso compreender que o virtual, por definição, é potencial, passível de vir a se manifestar fisicamente, de ganhar concretude real. Pense na relação entre a virtualidade da palavra e a realidade da coisa por ela nomeada. O significado é virtual, o objeto é real. Do mesmo modo, uma cédula monetária é real; o valor, virtual. A cédula é um título de crédito ao portador, e tem seu valor determinado pelas relações de troca: hoje vale tanto, amanhã nem isso. Se dólar, mais ou menos.
A relação entre o virtual e o real recupera as preocupações dos filósofos entre ato x potência, o caminho entre a virtualidade da palavra e a coisa concreta, valor de troca x valor de venda, significante x significado, a abstração de conceitos como o de poesia versus sua objetificação num poema, a doença x o doente, língua x fala, etc., etc.
Mas retomando a pergunta que originou esta reflexão, se um anjo é virtual, respondi ao aluno: se existem, de fato, os anjos, o que se nos parece ser possível apenas numa dimensão imaterial, incorpórea, etérea, espiritual, enfim, eles serão, por necessidade de sua natureza, reais. E a inexorável conclusão é a de que apenas não os percebemos, pelo menos não com as costumeiras faculdades sensoriais. E deveríamos ver com alguma admissão de verdade as afirmações daqueles que afirmam poderem vê-los. De onde, também, supormos que, analogamente aos demais sentidos, possivelmente se trata de uma faculdade cada vez mais presente entre as comuns faculdades sensoriais da maioria das pessoas. Assim, em os anjos existindo, para aqueles que dizem percebê-los (e aqui estamos supondo que de fato os percebem), os anjos são reais; para todos os demais, são e estão virtuais, havendo, pois, a possibilidade de deixar de sê-lo, quando (e se…) os perceberem.
E aqui cabe propor a existência de graus de virtualidade, já que se pode admitir a maior ou menor proximidade entre as duas esferas: virtual e real. Estamos pensando, por exemplo, na relação entre o valor de uma moeda virtual versus o valor de uma moeda de papel. A concretude desta última não lhe garante maior valor, virtual, que a virtualidade da primeira. Assim, também, cabe postular que uma emoção é mais virtual que uma sensação, que uma lei é mais virtual que sua aplicação, que uma intenção é virtual e sua concretização a retira dessa condição, que um pecado se dá por pensamento, palavras e obras, que uma injúria pode se tornar um crime, que uma palavra encerra significados virtuais em via de se tornarem menos virtuais, que a vontade é a potencialidade das potencialidade, e assim por diante, que querer fazer é uma vontade em busca de uma manifestação concreta, física, etc., etc.
Finalizando, não obstante a crença de que tudo se resume a crenças, cremos existir apenas uma não-crença: a de que existimos.
Por hoje, cartesianamente, cogito ergo sum, i.e., penso, logo existo; hoje, penso… logo… existo…

Democracia

DEMOCRACIA: GOVERNO DO DEMO
Espero que quem leia o título desta matéria nele não se detenha, e vá um pouco além. Conceda-me o beneplácito de transgressora liberdade de expressão, não tomando o incerto pelo certo e não creia que creio estar correto ao tomar, jocosamente, “demo” – povo, por “demo” – demônio. Não se tome também nosso texto como postura política desta ou daquela vertente, já que, e antes de mais nada, parafraseando o poeta, “minha pátria é minha língua” e também que “pátria”, sendo a Mãe, deveria ser Mátria. Esquerda ou direita ou centro ou dentro ou fora, afora e aforas.
Alguém já disse que a democracia é um ideal a ser buscado, sempre. Entre a concretude da prática (“pátrica”) e a solitude da gramática, subjaz a grama e o grama, o deletável e o deleitável. Não é, pois, tão a esmo que se insurgem uns tantos e quantos se revelam e rebelam. Verdades e inverdades pulam e pululam num calidoscópio que deixa entrever algum protagonismo a assumir a própria assunção. Presunção. Que será, será: Doris Day e dores night, dizia opiosa canção americânica da copiosa década do pós-guerra. Detestados unidos; alguns teriam, talvez, preferido estados punidos. Já o tivemos, não o fizemos. Sem rancores nas nossas cores, dores e amores. Se a arte é a busca do controle do acaso, o acaso mais casual é o que está acontecendo no exato momento em que você está se acontecendo. O significado, afinal, somos cada um de nós a cada e todo instante em que nós nos significamos, e ficamos. Oportunidades iguais… aos desiguais. Já disse o humorista: alguns são mais iguais que os outros. Ficamos imaginando em que medida (e se…) a afirmação da igualdade, no plano verbal, não contribui, exatamente, para acentuar a alteridade. Se aqui cabe recuperar em parte a tese de Sapir e Whorf sobre a influência da palavra sobre o pensamento, talvez também caiba supor que há um limbo amorfo que precede os dualismos pensamento-palavra, palavra-coisa, coisa-dogma do objeto.
Finalizando esse caos verbal, diga-se, por hoje é com-fusão de-mais.

Aliados negativos

OS ALIADOS NEGATIVOS

A sexualidade é uma experiência tão intensa para o gênero humano, que a natureza torna sua expressão quase compulsória e inexorável. Isso em consonância com o primado do corpo sobre o saldo restante da expressão integral da totalidade psicofísica do homem. É inegável que a importância que a natureza determina para essa função instintiva é de tal monta, que se se lhe pode atribuir o máximo grau de compulsoriedade a que se está sujeito pela mera condição de existir.
Isso posto, não seria de todo inexato estabelecer conexões entre essa e outras funções vitais psicossomáticas, na pressuposição de que a compartimentalização e/ou segmentação da totalidade do indivíduo carrega em si mesma algum grau de arbitrariedade.
Efetivamente, se entendermos, com Kant, Peirce e outros, que tudo é representação, e, com a Dra. Marie Louise Von Franz, que as chamadas “projeções” também se aplicam aos objetos inanimados, maior razão teremos em considerar os chamados “aliados” como representações de nossa natureza instintiva, animal, primitiva. Essas representações, obviamente, manipuladas pela cultura moderna, em contraposição às culturas ditas primitivas, sofrem a interferência da sociedade “moderna”. Aspas em “moderna” porque, não obstante os avanços tecnológicos, pouca evolução tem sido efetivada na consciência e personalidade do indivíduo contemporâneo. Essa introdução porque pretendemos tecer algumas considerações sobre tendências de índole xamânica e, portanto, animistas, que veem nessas manifestações do inconsciente, não representações de nossa natureza instintiva, mas realizações concretas de animais reais e, também, míticos. Quando entramos em contato com algum animal, seja mediante contato real, por meio de imagem, fotos, etc, e a imagem deste fica impregnada em nossa mente, é porque ele tem um significado especial para nós. O significado, porém, se mescla aos significados atribuídos pela cultura, e com esta interage.
Sucinta e genericamente, essas representações são simbólicas de nossa constituição biopsíquica. E aqui estão em jogo nossas crenças que, a despeito de como as encaremos – se como crenças ou como verdades -, terão sua legitimidade à medida que influenciam e influenciem nossa vida. Aqui é de lembrar o psicólogo Carl Gustav Jung, que assevera não importar se a informação provém da realidade ou de nossa imaginação, pois somos afetados do mesmo jeito. É de lembrar ainda Osho, que, respondendo a um discípulo, afirma ser importante o efeito que a crença neste produz. E, para arrematar, a Ordem Rosacruz: Não importa se você crê ou não crê, pois isso em nada afeta a natureza dos fatos.
Considerações à parte, pretendemos tecer algumas considerações sobre os aliados ditos negativos, assunto que tem passado ao longe das análises de tantos quantos se detêm no tema. É no mínimo curiosa, para não dizer paradoxal ou irônica, a denominação “aliados negativos”. A própria acepção de aliado rejeita o qualificativo de negativo, e aqui talvez coubesse pesquisar a gênese do termo aliado, seus significados e usos ancestrais. Seja como for, lembrando Jung mais uma vez, afirma o pesquisador que, quando sonhamos com algum animal, é porque precisamos integrar qualidades desse animal em nossa personalidade consciente. E a linguagem dos sonhos é, efetivamente, um modo de entrarmos em contato com nossa natureza primitiva, i.e., com nossos aliados.
Mas sobre os aliados negativos, aqui se encontram os “animais” que a experiência primordial que todos carregamos nos ensinou a temer. Estamos nos referindo, especificamente, aos répteis.
Os répteis representam a nossa natureza mais primitiva e ancestral, de quando ainda despontavam os primeiros raios da consciência na constituição humana. Rastejantes e silenciosos, tornaram-se temidos, ameaçadores. Ademais, ligam-se ao aspecto reptiliano de nosso cérebro, e são representativos dos aspectos sombrios da psique, ao arquétipo a que Carl Jung denomina Sombra. Os répteis não são domesticáveis; são silenciosos e sorrateiros e, portanto, perigosos. Vivem à beira dos rios, e se relacionam com as estruturas reptilianas de nossa constituição cerebral. Desse modo, são inconscientemente associados aos aspectos sombrios de nossa natureza biopsíquica, e precisam ser dominados, controlados, porém não eliminados. Estão ligados ao arquétipo denominado de Sombra, pelo citado autor. Precisam ser, portanto, integrados ao consciente, tarefa que exige extrema cautela e cuidado, e sinceramente não conhecemos ninguém apto a fazê-lo. E aqui recomendamos a leitura de dois livros: “Ao Encontro da Sombra”, coletânea de artigos de vários autores junguianos, e “A sombra e o mal nos contos de fadas”, da discípula de Jung, Marie Louise von Franz.
A respeito da Sombra, Jung e Franz e inúmeros psicólogos de afiliação junguiana fazem ver que, sob a superfície da personalidade consciente, encontram-se os atributos e aspectos mais repugnantes de nossa constituição biopsíquica. Esses conteúdos, por serem rejeitados pelo convívio social, são “varridos para baixo do tapete” do consciente, sempre à espera de oportunidades de se manifestar. Quanto mais reprimidos, maior energia acumulam e, assim, conseguem burlar a censura do consciente. Suas manifestações mais imediatas e palatáveis, são verbais, na forma de chistes, bromas, ironias, sarcasmos, e tais expressões orais certamente cumprem um papel de desrepressão e, portanto, produzem limpezas catárticas que nos propiciam relacionamentos mais francos e honestos com nós mesmos. Aqui temos a cumplicidade do que Jung chama de Persona, a máscara social de que nos revestimos para encobrir os aspectos socialmente reprimidos da Sombra.
E o confronto com a Sombra é extremamente perturbador. Representações e analogias abundam na literatura mundial. Obras e personagens como o Fausto, de Goethe, Dr.Jekyll e Mr. Hyde, de Robert L. Stevenson, Dracula, de Bram Stocker, são bem representativas. Citem-se ainda a narrativa bíblica do encontro de Sananda com o Tentador no deserto, experiência que encontra paralelo com a experiência do Buda Gautama sob a árvore Bodhi antes de atingir a Iluminação.
Trata-se, portanto, de um confronto inevitável e necessário, que nos põe em contato com nossa finitude e desamparo, experiência de que nos protegemos pela desindividuação propiciada pelo grupo religioso, místico, esotérico, xamânico, etc., a que nos ligamos e liguemos. A proteção, porém, não perdura. Não é possível ficarmos todo o tempo e o tempo todo sob o pretenso manto do acobertamento cúmplice do grupo. Cedo ou tarde os véus vão sendo removidos pela inexorabilidade da dinâmica da própria autodescoberta. Felizmente, embora não a princípio. Isso porque não se deve deixar-se subjugar numa passividade amorfa. Há que se usar os atributos da Sombra como instrumentos de crescimento.

Por hoje é sol, i.e., sombra.

Amor (in)condicional

A releitura do quadro acima, à direita, ao trocar o previsível carneirinho pelo imprevisível dinossauro nos leva a refletir sobre o propalado amor incondicional. Cabe a pergunta: o amor, em tese, não seria, forçosa e necessariamente, incondicional? Se condicional, é (seria…) amor?
A amor incondicional se contrapõe, obviamente, “amor condicional”, e aqui talvez coubesse melhor amor “condicionado”, nas duas acepções: a que se volta para o objeto do amor e a que se volta para o sujeito que o manifesta, este último reverberando a noção já defendida de que todos sofremos condicionamentos, i.e., todos somos condicionados, afirmação que dificilmente pode ser contestada.
Efetivamente, desde a (e antes da…) experiência pavloviana dos reflexos condicionados, a questão parece resolvida, e o ponto que se coloca é a reversão da causalidade, segundo a idéia prenunciada por Jung em sua obra “Sincronicidade, um princípio de conexões acausais”, e abordada pelo pesquisador indiano Amit Goswami em “O universo autoconsciente”. Sucinta e explicitamente: o amor pré-existe e só fica à espera de um objeto para se manifestar? Goswami propõe uma reversão da causalidade, em que o futuro influenciaria o presente, a causa advindo do efeito, e não o precedendo.
Esse raciocínio tem algo de transcendente, mais em acordo com a tese da atemporalidade, a perspectiva da simultaneidade e não da sequencialidade, em consonância com a psicologia pragmática de William James, que postula ser a emoção posterior à reação do organismo, e não o contrário. Exemplificando, a hipótese de James entende que, se virmos, por exemplo, um leão solto vindo em nossa direção, nós não fugimos porque temos medo, mas temos medo porque fugimos. Essa tese de James, ele mesmo colocava em cheque, quando se dizia “quase convencido” de sua veracidade. Contudo, num mundo em que os paradigmas científicos tradicionais estão sendo contrariados, não é de todo inadequado considerar a verossimilhança dessa asserção do pesquisador britânico.
Feita essa digressão, cabe explicitar questões subjacentes à idéia de amor (in)condicional. É imutável e ilititado? É verdadeiro? Exemplo seria o amor dos pais pelos filhos, ou, mais especificamente, da mãe, o proverbial amor materno? E amar o outro implica amar a si mesmo? E o amor a dois, a despeito das configurações dos casais? É verdade que “quem deixa de amar, na verdade, nunca amou”? E o amor feminino é diferente do amor masculino? E as mulheres que amam demais? E o que dizer das projeções do amor romântico mencionadas por Freud? E quem diz amar o amor não está se esquivando de expressões concretas desse sentimento? Trata-se, mesmo, de um sentimento ou de um conjunto de sentimentos? O amor existe por si só ou requer um objeto para se manifestar? É simples ou complexo? Quando exige algo em troca, é, mesmo, amor? Existem graus e qualidades amorosas? É imorredouro e transcende a morte? E a oposição amor – ódio não seria, talvez, melhor expressa como amor versus medo? E o amor a Deus, à vida, ao universo, ao infinito? Qual a relação entre amor e humor, amor ao outro e amor a si mesmo? E o que dizer da paixão (não nos esquecendo de que paixão vem de “pathos”, i.e., doença, sofrimento, “patologia”)? De onde também “compaixão”, Paixão de Cristo…
São todas questões implícitas nesse estado de espírito ou de consciência tão almejado e buscado. Afinal, como dizem os místicos: o amor é a lei. Finalizando, cite-se Osho, que afirma ser a mesma energia que, no plano instintivo, é sexo, no plano humano, é romance, no plano espiritual, é prece.
Preceito sem preconceito.

É possível x pode-se

É possível afirmar x pode-se afirmar
Hoje retomo minha coluna CORRETANDO, para discutir um uso linguístico algo inadequado. Trata-se da alternância no uso de “é possível…” versus “pode-se”, aplicáveis aos verbos de dizer, a exemplo de afirmar.
Quando se diz “(1) é possível afirmar”, a tônica da ação recai sobre a possibilidade; quando se diz “(2) pode-se afirmar”, a tônica da ação recai sobre o sujeito indeterminado, implícito no pronome “se”, ou seja, “alguém, todos, alguns”, indeterminado, pode afirmar. Observe-se que “(1)”, “é possivel afirmar”, denota um âmbito virtualmente infinito, já que o branco do papel admite qualquer tipo de afirmação, por mais absurda, incomensurável, inaceitável, etc., que seja. O mesmo não ocorre com “pode-se afirmar”, já que o sujeito aí implícito vai ser, inexoravelmente, finito, a menos que se refira a Deus ou…
Compliculismos textuais à parte, ambas as formulações – (1) e (2) – cumprem a função de diluir, parcialmente ao menos, a responsabilidade por aquilo que se está afirmando; entretanto, (2) traz implícito como que um pedido de autorização para afirmar o que se vai afirmar, já que, como já afirmamos, a tônica da ação, a “responsabilidade” pela afirmação, recai no sujeito, em tese, indeterminado, que, embora gramaticalmente indeterminado, pragmaticamente não o é, pois indica o autor do texto que se está lendo.
O uso de “é possível…” x “pode-se” responde pela modéstia que em geral se espera de um texto acadêmico; é quase um pedido de desculpas antecipado. O absurdo, porém, é que a tal “modéstia”, tendo gerado o tal “plural de modéstia”, que substitui o “eu” pelo “nós”, pode se confundir formalmente com o “plural majestático”. Em outras palavras, por não admitir o uso do pronome pessoal de primeira pessoa do singular – “eu” -, o texto acadêmico passou a admitir o uso, implícito, de “nós”, e construções “chatas” como “estudaram-se vários textos”, “buscou-se analisar”, “pretendia-se averiguar”, etc., hoje dão lugar a “estudamos vários textos”, “buscamos analisar”, “pretendíamos averiguar”, construções mais “digeríveis” (e dirigíveis…, com o perdão do chiste).
Para finalizar, lembramos da letra de uma música norte-americana, gravada por vários cantores (e.g., Frank Sinatra, Perry Como, Elvis Presley…), denominada “It’s Impossible”. A letra diz, em tradução nossa (i.e., minha), coisas do tipo: “é impossível mandar o sol sumir do céu”, “é impossível pedir para um bebê não chorar”, etc. Ora, como a referência é ao próprio texto, não é impossível mandar o sol sumir do céu, nem pedir para um bebê não chorar. O que é certo é que nem o sol nem o bebê vão cumprir o que se lhes pede. A música, porém, termina com a conclusão: “…assim, também, é impossível viver sem o seu amor”.
Impossibilidades demais por hoje.

Salve lindo pendão

Salve lindo pendão
O domingo mais colorido e festivo que eu passei na vida foi aquela segunda-feira de um escaldante verão em Moscou. Os históricos quase quarenta graus deixavam a juventude histérica. As meninas, eufóricas, entravam de roupa e tudo naquele pretensioso chafariz em frente às altas e austeras muralhas vermelhas do Kremlin. As estátuas dos cavalos jorravam águas e alegrias. Dezenas de turistas clicavam suas câmeras querendo levar para casa registros daqueles momentos quase inimagináveis. Eu também.
Já satisfeito com as imagens clicadas, vou me afastando dali, quando vejo duas moças se aproximando de um grupo de rapazes. Com maquiagem carregada, longos cílios e roupa estilo cosplay, destoavam totalmente das jovens do chafariz. Algo ali ocorria. Resolvi clicar minha câmera. Cliquei. Elas viram… e não gostaram. Chegaram-se para o grupo de rapazes e, apontando para mim, falaram ao suposto líder: “- Sbrzenewsky photograph mevledev…” O “photograph” eu tinha entendido.
O líder do grupo, de peitoral e peitoril do tamanho do Brasil, se aproximou, esbravejando: “- Sbrzenewsky photograph mevledev…” Novamente o “photograph”. Respondi, desconfortável, caprichando no inglês: – Unfortunately I can’t understand you. Ele vociferou: – gresbnie burtzky parakalov. Bastante intranquilizado respondi-lhe, apontando para a bandeira do Brasil no chapéu de pano que eu tinha na cabeça: B R A S I L…s
Surpreso e quase feliz, ele exclamou: – Ah… Braziiiliiia…! Kaká… Ronaldínio… – Yes…, and Romário e Bebeto, and Pelé, Tostão e Pepe…! Tranquilizado e sorrindo ele se afastou. Mais tranquilizado e sorrindo fiquei eu…

Corretando

CORRETANDO
Após mais de quarenta anos revisando e corrigindo textos acadêmicos e de outras naturezas, sinto-me no direito de tecer alguns comentários a respeito de erros e não-erros colhidos ao sabor das saudáveis e doentias ambulâncias e perambulâncias cotidianas. Lembro, porém, o poemínimo de Leminski: rio do mistério/ o que seria de mim/ se me levassem a sério?
Isso pra dizer desse modo que muita vez me subordinarei aqui nem tanto à norma, senão à forma: a forma/ conformada/ vira norma./Precisa então ser transformada. Isso também para assinalar que não mais confundimos sisudez com seriedade, pertinácia com pertinência, eficácia com eficiência. Assim não nos furtaremos aos trocadilhos, jogos de palavras, chistes, rimas, plasticidades verbais, e coisas que tais, mais totais que parciais, mais macias que marciais.
Começar pelo começo não é redundância, redondância, redonda ânsia. No início era o cio, e o cio estava com eu, e o cio era eu. E o cio se fez carne e habitou entre nós, nós cegos, nós górdios, nós todos.
“BRASIL, UM PAÍS DE “TODOS””
Essa injunção do governo de antanho era mesmo uma anta linguística. As aspas que pusemos em “todos sinaliza um enfoque irônico, figura de linguagem que visa significar o oposto do que se diz textualmente. Pergunta: o que significa esse pronome indefinido, “todos”? Por definição, o pronome indefinido não define. Deixa implícito, talvez. Certamente (e o advérbio de modo certamente confere certa relatividade à certeza), mas certamente todos, aqui, significa “todos os brasileiros”, e é de supor os aqui nascidos e que não rejeitaram sua nacionalidade, porém e os que rejeitaram sua nacionalidade, ao se expatriarem e a “outra pátria” deles exigir a renúncia à sua natural nacionalidade? Isso ocorre. Certamente os estrangeiros que obtêm a cidadania brasileira estarão implícitos naquele “todos”.
Se o pronome indefinido “todos” é aqui mesmo estranhável, mais o é (…!…) o artigo indefinido “um” aplicado a “país”, já que, vindo a frase de onde vem e de quem vem, o substantivo Brasil é, de fato e de direito, e muito, definido. É, afinal, a palavra do governo, e do governo brasileiro, e da época repatriada e repatriável, etc., etc., etc. Considerações feitas, a “verdadeira” frase seria esta: Brasil, de todos os brasileiros.
Leminskiando: tudo dito/ nada feito/ fito e deito.
Em tempo: pensamos em inaugurar uma coluna, e este seria/será, terá sido seu primeiro texto, pretexto, contexto. Nome da coluna: corretando…

Zona de conforto x zona de acomodação

Zona de Conforto x Zona de Acomodação
O famoso verso de Shakespeare, que pergunta, “o que há num nome?” – “uma rosa, se tivesse outro nome, teria o mesmo perfume”, traz à baila o primordial interesse que desperta no homem a relação entre a palavra que nomeia e a coisa nomeada. Efetivamente, nem é preciso dizer, embora não sejam a mesma coisa, na mentalidade algo infantil de muita gente ambas se confundem e fundem. A representação se torna ação; o boato ato, fato e artefato; a palavra lavra e larva; o substantivo, substância e instância. Toque-toques na madeira após algo dito que não é bem-dito nem bendito, atores que sofrem agressões físicas na rua, de gente que não os distingue dos personagens que eles interpretam, os proverbiais tabus linguísticos que levam à criação de dezenas de eufemismos, etc., etc., são indícios de estagnação na fase de aquisição da linguagem, etapa do desenvolvimento da personalidade em que “todos” deveriam deixar de tomar a linguagem pela realidade. Mas não é isso que acontece, e essa etapa não superada talvez explique em parte por que o Brasil está se tornando o país da mordaça, que torna a fala pura e simples, de mera expressão verbal, em crime. Talvez subjacente a isso esteja o temor de que a virtualidade do dito se converta na concretude do feito, e transforme a verbalidade do boato em realidade do fato.
Tudo isso está implícito na vigente preocupação com o “politicamente correto”, e a questão que aqui se pode levantar é em que medida essa preocupação, que não vai tão e muito além da pura verbosidade, quiçá verborragia, em que medida essa preocupação não serve para mascarar o próprio objeto designado, como se mudar o nome atribuído a algo mudasse o próprio algo, algoz mesmo. Assim é que o delinquente juvenil se torna o menor infrator; o sonegador de impostos, depositário infiel; o presidiário, interno ou apenado, e a penitenciária, casa de custódia. Favela deixou de o ser, hoje é comunidade, e um programa matinal na TV tinha um quadro com o nome “Beleza na Favela”, depois rebatizado de “Beleza na Comunidade”, e ficamos pensando que a inteligência televisiva desconsiderou um ofensivo “Bela da Favela” porque a rima, ao acentuar pela identidade fônica, i.e., a rima, deixava entrever, entreler ou entreouvir a suposição de que seria surpreendente haver em tal espaço urbano expressões estéticas dali destoantes, surrealismo, mesmo. Esforços louváveis a quem de direito… mas e de fato…?
Já se disse alhures (Mallarmé e outros): quando se dá nome aos bois, corre-se o risco de perder a própria boiada. Mas o versa-vice também é verdade (caetaneando velozicamente): “o avesso do avesso do avesso” desconfirma “o avesso do avesso do avesso do avesso”, isto é, ou seja, em outras palavras, ou melhor, i.e., melhor dizendo, em suma: a realidade nua e crua é maquiada pela verbalidade vestida e travestida. Hoje, favela é comunidade; penitenciária, casa de custódia; toxicômano, drogaadito; presidiário, interno; marginal, excluído, etc., etc. O paradoxo da palavra é que, ao mesmo tempo que ela revela, também esconde; mas para quem sabe rever e reler, ao mesmo tempo que ela esconde, também revela. E as entrelinhas se tornam cintilantes estrelinhas, a nos lembrarmos da saudosa Clarice Lispector: “Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”.
Despoetizando, não nos devemos incomodar com a zona de conforto, mas com a de acomodação. “Pensar fora da caixinha” só confirma que, dentro da caixinha, não é pensar, de modo que pensar é, pleonasticamente falando, fora da caixinha. É preciso trocar os impróprios móveis para fora do próprio imóvel, não apenas trocá-los de lugar dentro do imóvel.
Tudo isso para deixarmos implícitos os plágios e roubos. Para bom entendedor, meia palavra é mentira. A mente mente, infeliz-mente. Olho olha olho que o olha.
Por oje é ojeriza. Hoje riso.

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