poemínimos

moralidade

a brusca

busca

do prazer

da fala

e do falo

.-.-

punção extrema

entre o lamento

e o alento

transpiro

 

entre o vero

e o verso

suspiro

 

entre o mar

e o amar

piro

.-.-

erro de gênero

grande é o mar

mais grande é amar

.-.-

distopia

você para

espera

e se desespera

 

ninguém para ver

o naufrágio de tua quimera

 

amorodio

ODIOAMOR

A maior prova de que o ódio faz parte do amor está em que há pessoas que nem o nosso ódio merecem. E há pessoas que amamos odiar, e outras que odiamos amar. Pode…? Pois é, pode. Feliz e/ou infelizmente. A verdade é que nem sempre a felicidade está do nosso lado, nem a gente do lado dela. Pode estar com a outra pessoa, ou esta do lado daquela. A verdade é que a felicidade por carona pode te deixar a pé em qualquer esquina da vida. E nem sempre você está com o calçado ideal para continuar a caminhar sozinho. É quando você descobre que o calçado era emprestado, da outra pessoa. O seu você deixou guardado quando nem sabia que a vida ávida podia um dia te roubar. Por isso caminhou, doído e doido, meio a esmo, mas caminhou assim mesmo.

Daí também perceber que a tua felicidade é só tua, só depende de você, e de um pote de sorvete. Ah, e do universo, que não quer perder ninguém, nem você. Solidão cósmica. O universo como o grande Outro em cuja outridade você precisa mergulhar, experienciar, se fundir. Dizem. Eu medito, me dito e acredito. A questão é que a nossa pequenez se torna mais pequena, e o universo ama os pequenos. Se assim não fosse, todos estaríamos na fossa, abissal, colossal, infernal. Ainda bem que… Que o quê?! Sei lá, meu, entende…?…!

Mas voltando ao simplismo do óbvio, óbvio é que, como se diz, ninguém chuta um cão morto. Também não é por ele atacado. Se vivo, acatado. Amor e ódio se completam, se complementam, formam um todo, se todam. São modalidades diferentes da mesma modalidade. Daí se entende porque, com frequência, um se torna o outro e o outro se torna o um, quando um e ou outro se desvestem de si mesmos. Se há o tal do amor incondicional, eu não sei; mas que o condicional condiciona o cio e, então, se torna ciúme, ah, isso é muito… muito… muito sei lá cio o quê… tão cioso, ocioso, malicioso, contencioso, gracioso, devocional, …, … Oremos, irmãos (e irmãs)…

o paradoxo de fermi

O paradoxo é uma figura de pensamento em que tanto a afirmação quanto a negação de um dado evento são falsas e verdadeiras ao mesmo tempo. Entre esses, está este: para você ser completamente feliz, você não pode ser completamente feliz, já que a própria ideia de felicidade implica no próprio motivo para alcançá-la. Poeticamente, seria como um sonho que, depois de realizado, a sua realização não eliminasse o próprio fascínio do sonho; ou como a dizer para a pessoa amada: eu te amo tanto, tanto, que mesmo quando estou com você eu sinto saudades de você. Este, agora, é do saudoso Millor Fernandes: se toda regra tem exceção, deve haver por aí alguma regra sem exceção.

No caso do paradoxo de Fermi, a referência é à possibilidade/probabilidade de viagem no tempo. Ou seja, se a viagem no tempo vai ser possível algum dia no futuro, ela já é possível e já estaria/está ocorrendo agora no presente; daí a pergunta de Fermi: onde estão eles?

Várias respostas são possíveis à objeção de Fermi, e a que me parece insofismável eu encontrei outro dia, “por acaso”, na Internet; alguém que perguntou: 95% dos oceanos estão inexplorados; então como é que você pode afirmar que sereias não existem?

Confesso que pela primeira vez na vida minha mente questionadora ficou sem conseguir alguma objeção. De modo que extrapolei a questão para o próprio universo: se xxxx% do universo estão inexplorados, como é que você pode afirmar o mesmo sobre a existência ou não de vida extraterrestre? Quem quiser que se habilite; eu não consigo. Tenho (quase) dito.

 

erros de gênero

Tenho um poemínimo que diz: se o erro me leva a eros, eu erro porque queros. Obviamente, nem é preciso explicar que a grafia “errada” queros, pelo simples acréscimo do “s”, confirma a própria pertinência de um erro que deixa de sê-lo por se conformar à própria afirmação e potencializar o significado de querer ao possibilitar subentender dentro de queros, eros. Algum corretor desavisado talvez cometesse o equívoco de corrigir esse erro, e nos lembramos de um amigo que, tendo ganho de presente uma gravura de um artista famoso, teve a ingrata surpresa de ter a gravura “limpada” pela ação de uma diarista, que simplesmente achou que a assinatura do artista, a grafite, na gravura, era uma sujeira.

Em linguagem às vezes a transgressão é necessária, e ficamos pensando se em outra áreas também não. Discordamos de quem afirma que as regras existem para ser quebradas; não obstante a sensatez de que há ocasiões, raras, em que precisam.

No domínio estritamente verbal, há momentos em que a própria necessidade de expressão legitima a transgressão. Já tivemos a oportunidade de discorrer sobre o fato no texto “Com o perdão da licença poética” publicado neste blog, em que propugnamos pela ocasional necessidade de transgressão verbal, em consonância à ideia de que a arte é, por excelência, o espaço da transgressão.

A transgressão se aplica muito bem ao texto artístico quando, assinale-se, é absolutamente necessária e, portanto, intencional, não gratuita, cumprindo sua função de dizer o que de outro modo não seria possível. É quando o erro se torna legítimo, e a exceção confirma a regra. Mas como pensar não paga imposto e poetar é gratuito, e fazendo eco à questão de gênero, achamos que algumas palavras deveriam mudar de gênero. Entre elas, mar, que não deveria ser o mar, mas a mar. De onde se fundiriam as noções de mar origem da vida e amar também. E mais: amor, sendo expressão da alma, deveria ser “almor”; e feminino, “almar”; de onde significaria: dotar de alma, voltar ao mar, a fonte da vida, e amar.

Essa viagem de gênero veio lá dos gregos, que passaram a atribuir gênero a todos os seres, animados e inanimados, quer dizer, desanimados. Lembrando que alma, animal, animar, animado têm a mesma origem. Com o tempo, confundiu-se gênero com sexo, e o negócio ficou complexo e com plexo. Já disse o filólogo que “negócio é a negação do ócio”. E lembramos que “filologia”, de onde filólogo, é “amor às letras”, i.e., às palavras. “Palavras são palavras, nada mais do que palavras”, já dizia o bordão do personagem televisivo de Dias Gomes. Para finalizar, mais este poemínimo:

grande é o mar

mais grande é amar

 

Tenho escrito.

O Texto e o Intertexto

O princípio da intertextualidade entende que todo texto é, na verdade, um intertexto, já que dialoga com textos anteriores. O termo foi criado pela filósofa e escritora húngara Julia Kristeva, e assume diversas acepções, já que designa várias modalidades de tratamento textual, entre as quais a citação, a tradução, o plágio, a paródia, a paráfrase, e assim por diante. Se é verdade que nenhum indivíduo é uma ilha, o mesmo se pode dizer de um texto. Entretanto, a aplicabilidade desse conceito fica algo aquém de sua máxima pertinência quando se trata do texto artístico. Isso porque, a nosso entender, o texto artístico, e mais especificamente o texto poético, não só dialoga com textos anteriores, mas participa da natureza de outros textos artísticos, como se dissesse a mesma coisa mas de outro modo. Não é à toa, portanto, que muito poeta, ao ler poema não de sua lavra, se sente inclinado a responder com outro poema. Por certo, o plágio, a paródia e a paráfrase, embora aqui se encontrem, nem sempre fazem jus ao texto original. Não obstante, não se pode negar que, quando se trata de textos e poemas traduzidos, há o risco (extremamente oportuno e bem-vindo) de a tradução ficar “melhor” que o original, embora na maioria das vezes fica aquém desse resultado.

Estamos pensando na tradução da obra As Flores do Mal, do poeta simbolista francês Charles Baudelaire, pelo também poeta modernista e acadêmico, brasileiro, Guilherme de Almeida. Quando a intertextualidade da tradução alcança esse efeito de igualar e, mesmo, “superar” o original, isso se deve sobremaneira à poeticidade do próprio tradutor, como se a reproduzir ou sobrepujar o original pela “recriação” do original. Toda tradução, na verdade, é a busca de uma “transcriação”, é, em última instância, uma leitura. Lembramo-nos aqui do texto de Jorge Luis Borges, “Pierre Menard, o autor do Quixote”, em referência à obra de Cervantes. Entre as questões que então se levantam está a da autoria e da coautoria de uma obra, podendo-se aqui recuperar a tese da leitura criativa e da apropriação de um texto; e acrescentamos, em coerência a essa visão, que todo autor é, na verdade, coautor de si mesmo, quiçá o leitor mais gabaritado do texto “original”. O escritor Umberto Eco chega a afirmar que, escrita a obra, todo autor deveria se suicidar, para não impedir a leitura. E chegamos mesmo a nos lembrar do que teria afirmado um escritor curitibano, ao ler uma tese de doutorado sobre sua obra: “você é muito melhor leitora de minha obra do que eu sou autor dela”. Cite-se, ainda, o cronista Fernando Sabino que, em palestra, teria respondido que não percebera que tinha escrito o que a interlocutora mencionara. Essas questões têm repercussão em duas outras que surgem em sala de aula: o que o autor quis dizer com isso? Será que ele pensou nisso?

À primeira pergunta, Paulo Leminski respondeu algo irritado: eu não quis dizer: eu disse! À segunda pergunta, cabe responder que o texto artístico incorpora elementos que não estavam presentes no momento de sua produção e dialoga com outras temporalidades, relegando a questão a segundo plano, levando-nos a concluir que, publicada a obra, em última edição, o autor não pode autorizar nem desautorizar qualquer leitura potencial, desde que isso incumbe ao próprio texto, e não a quem o enunciou. Finalizando, recaindo hoje a tônica mais na leitura do que na autoria, pode-se postular existirem três instâncias do texto: a) o que o autor quis dizer; b) o que de fato disse; c) o que o leitor entende. Essas três instâncias nem sempre se processam à supostamente pretendida perfeição. Per fas et nefas.

Oralidade e moralidade

A moral é um conjunto de princípios legitimados pela sociedade e que, em tese, devem nortear o comportamento dos indivíduos que a integram. Nem sempre explícito ou explicitado, o princípio norteador às vezes se torna obsoleto, ultrapassado, e o que era aceito deixa de ser. A moral se confunde com a ética, nem sempre de fácil distinção. Moral vem do latim, moralis/morus, e indicava simplesmente costume. Já ética vem do grego, ethos, e diz mais respeito a uma atitude que se tem, em primeiro lugar, para consigo mesmo e, por consequência, para o coletivo. De onde se inferir que moral tem mais a ver com a aparência; ética, com essência. Moral, ligada aos tabus, refletem as máscaras sociais; ética, atrelada a valores que se pretendem e pretendam perenes.

 

De onde lermos dentro do adjetivo/substantivo moral o adjetivo oral, e encontrarmos na relação entre oralidade e moralidade nosso tema de hoje, desde que nosso país tem se tornado o que outrem já dissera, o país da mordaça, que criminaliza mesmo a própria expressão oral que, em tese, deveria constituir um dos pilares da democracia. E isso afirmamos não sem certo desconforto, pois o peixe morre pela boca e os da lavra pela palavra. Pelo menos é o que se tem visto na e pela mídia, explicitamente, os meios de comunicação. Cuidado com que opinas, tuas palavras assassinas, podem cometer chacinas, é o que eu diria se… se… se… sei lá o quê.

 

Mas confesso desde já que não tenho vocação pra mártir, talvez só pra Marte e, supremo, morte, de sorte que, se me faltar arte, que me leve, misericordioso, leve enfarte. Indelével… de leve.

 

Outro dia fomos alertados para o significado do verso de Fernando Pessoa, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Meu interlocutor fazia ver que preciso, aqui, não deve ser lido como verbo, mas como adjetivo, o que traduz o verso em “navegar é exato, viver não”. (Obrigado, Professor Marcelo.)

Citamos isso para introduzir o pensamento de que a oralidade, como um primeiro reduto da moralidade, tem sido objeto de abjetas transformações e acolhido diletas formações. Pelo menos no tocante à sexualidade a oralidade corre solta, e quem quiser ler esta frase mesma com a conotação sexual vigente se sinta à vontade. (Curiosamente, quando estávamos digitando “um primeiro reduto”, cremos ter quase cometido um ato falho, pois estava saindo “redutor”. Psicologismos…)

 

Ocorre que a tal moralidade tem um tanto de hipocrisia, teria dito um não hipócrita. A ética, por definição, não. Em tempos do politicamente correto, e muita vez chato, o próprio advérbio “politicamente” contamina o adjetivo “correto”. Outro dia ouvimos na televisão uma escolinha infantil que ensinava às crianças o “politicamente correto”. Aquela gentinha linda cantava, inocente, “eu não atirei o pau no gato”. A bem intencionada professorinha não percebia que, ao acrescentar o advérbio não à inconsequente cantiga infantil, tornava regra a exceção. Como se fosse necessário você afirmar que, pelo menos naquele dia, você não cometeu mal algum. Nem oral, nem moral.

Quem quiser ver a hilária ilustração, visite o site:

 

https://lojagatamia.com.br/plaquinha-mdf-surtei-e-atirei-o-pau-na-dona-chica.html

siglas

SIGLAS

Certas siglas, pela constância do uso, acabam adquirindo certa independência morfológica dentro da linguagem e, com isso, maior proeminência que aquilo que designam. É de citar os casos das universidades UNICAMP, USP, UFSC e UFRJ, dentre outras. Aqui também se enquadram, por mera observação empírica, a UFPR e, obviamente, a UTFPR, assim como era também o caso do antigo CEFET. Aqui também se encaixam: ONU, OTAN, FGTS, INSS, IRF, COPEL, CPF, CEP, FUNAI, PIB, TRE. Por serem abreviativas, acabam adquirindo precedência e, pois, preferência no uso linguístico do dia a dia.

Elas facilitam a comunicação, e nem sempre é fácil de lhes recuperar a própria designação que lhes deu origem e, diga-se de passagem, isso só constitui entrave quando se necessita saber o que designam. É o caso de CAPES, SUDENE, ANVISA, ANAC.

As siglas, porém, não se confundem com abreviaturas. Estas são reduções e possuem características específicas, dentre as quais o fato de que nem sempre essa redução gráfica acarretar redução fônica, o principal exemplo dos quais é “etc”.

O uso linguístico atual tem dispensado o uso de pontos, e isso é especialmente aplicável a siglas longas, e já se admite que estas sejam grafadas com maiúscula apenas a inicial: Bovespa, Embratel, Fgts, Ufrj, Anvisa, Capes, etc.

Mas o caso mais significativo de uma sigla que adquiriu independência morfológica e, pois, legitimidade de vocábulo, é, parece-nos, ibope, originalmente sigla que indica Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. Passou a integrar expressões como: isso não dá ibope; aquele programa de tv tem ibope alto, sendo, aqui e ali, substituído pelo substantivo não matizado “audiência”.

flexão de gênero e número

Aconselha-se prestar atenção à designação original para saber se se trata de masculino ou feminino. Assim, por exemplo, é “a” DOPS, e não “o” DOPS, já que se trata de Delegacia da Ordem Política e Social; “a” CEASA (Central), “o” Unicef (Fundo) e, rigorosamente, “a” DDD (discagem)

 

 

GPS

Quase não mais se dá conta de que Senai significa Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Senac, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, etc.

Finalizando, a abreviatura “etc.”, do latim “et cetera”, significa “e outras coisas”. Não deveria, portanto, vir precedida de vírgula; entretanto vem, por força da tradição do uso.

 

Em tempo, o substantivo composto dia a dia não mais se escreve com hífen, segundo o acordo ortográfico vigente. Vige… vigi… víxi…

parecer para ser

parecer para ser – ou finja até que atinja

 

A língua inglesa tem um bordão que diz: fake it untill you make it. O significado é “faça de conta que a coisa é isso até que a “coisa” se torne isso”, ou finja que a coisa é real até que ela se torne real. Para preservar a concisão e a rima, propomos a tradução: finja até que atinja. Isso, mesmo a despeito da possível conotação sexual que se possa daí depreender, vindo em nosso auxílio um dito que amigo me enviou pela internet: eu posso controlar aquilo que eu escrevo, mas não aquilo que você entende com o que eu escrevo. Asserção que tem sua máxima aplicabilidade em se tratando de texto artístico, e menor em textos acadêmicos, já que estes devem primar pela minimização da possibilidade de subtextos e, pois, subleituras.

Mas interessa-nos aqui a ideia que tem admitido a Física, da possibilidade e/ou probabilidade da reversão da causalidade, em que há ou haveria no universo circunstâncias em que seria subvertida a sequencia temporal, e o presente poderia ter influência do futuro. Essa noção é mais fácil de assimilar por quem de condicionamento cultural do oriente, que privilegia mais o sujeito que o objeto, algo como se, ao contrário de nós ocidentais, dissesse ser necessário, não ver para crer, mas crer para ver.

Contudo, mesmo no domínio da ciência e tecnologia, já se começa a trabalhar com a constatação de que os paradigmas até então válidos podem ser quebrados. A física quântica admite que dois corpos podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo e um mesmo corpo estar em dois lugares ao mesmo tempo, concepções que, diria o inglês, são mind boggling. Efetivamente, a pretensa segurança do legitimado ceticismo com que se encaram certas possibilidades até então consideradas impossíveis ou inusitadas deve dar lugar a uma prudente expectativa de que o maravilhoso tem sua plausibilidade. A hipótese é de que nem tudo está previsto ou predeterminado. Tem-se imposto cada vez mais a necessidade de revogar parcialmente um dos sustentáculos da civilização, a de que esta nos garante a segurança de nossas convicções. Se é verdade como teria afirmado Einstein que tudo o que é possível acontecer, acontece no universo, não seria ocioso ao menos supor a possibilidade de o futuro influenciar o presente. Como disse Osho: seja realista: acredite em milagres. De onde a esperança de que, neste multiverso imponderável e empoderável, tudo-nada está (pre)determinado.

A necessidade de acreditar, outro modo de não perder a esperança derradeira que última falece, às vezes é tudo o que resta, antes do final rest in peace. Crer para ver, ver para ser, pare-ser, parecer.

Corriquindo Egívocos

CORRIQUINDO EGÍVOCOS
Nunca é tarde para mudar. E a esse verdadeiro bordão da oposição à permanência, a tentação é retrucar: nunca é cedo para tardar. Como já dizia a tirada humorística do impagável Grouxo Marx: “eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio”. Chamar de tirada humorística em referência a esse extraordinário representante do povo mosaico, é pleonástica redundância, com o perdão da redondância. E aqui também cabe lembrar outra tirada tirada não sei de quem, a respeito do trabalho: trabalhar pra quê…, pra sustentar um pobre vagabundo como eu que não quer nada com o trabalho?
1º de Maio, Dia do Trabalho ou do trabalhador? Mas dia do trabalhador não seriam e são todos os dias? E a tentação é imaginar um trabalhador sem muitos recursos intelectuais achando que, em primeiro de maio, eu não maio. Nos outros dias de trabaio, só quano dismaio, diz maio. Até eu publicar este texto, não sei se vou publicar este texto. Seja como for…
lembramos a afirmação equivocada de um matuto brasileiro a quem foi confiada a liderança de um grupo de aspirantes a chaman, shaman e xamã, nas grafias espanhola (original do chileno que deu à luz a organização andina), americana, que serve de norte à adoção de termos e usos linguísticos, e portuguesa (de direito portuguesa, mas fato brasileira, desde que a maioria dos integrantes daquela organização é constituída de lusitanos brasileiros e nenhum lusitano lusitano). A afirmação equivocada, algo poetificada pela pronúncia e grafia daquela nacionalidade, asseverava que o substantivo espanhol “trabajo” vem de “traer abajo”, i.e., “trazer abaixo”. A ideia é de que o trabalho “xamânico” vem do alto, se realiza por isso. A ideia de manifestação aí implícita não é de todo inadmissível se aceitarmos a ótica do animismo como a mais antiga expressão da índole religiosa da natureza humana ainda não contaminada pela civilização e, portanto, natural. Na ocasião, não nos pudemos manifestar dado o contexto em que a afirmação era feita. Semanas depois, ante a retomada da falsa etimologia em diferente circunstância, pudemos referir que trabalho vem de tripalium, instrumento de tortura da antiguidade, constituído de três paus, dois formando uma cruz, um “X”, pregado sobre o terceiro fincado no chão. O relato bíblico menciona a morte de Pedro no tripalium, e cabe ainda lembrar que originalmente o trabalho era amaldiçoado, conforme o Gênesis, um verdadeiro castigo sentenciado como punição em acréscimo à expulsão do Jardim do Éden.
Corrigido o equívoco, inocente equívoco, desconheço o efeito exercido ou a exercer (se houve ou houver) no líder do grupo que tão somente repetia o que ouvira de instância a ele superior em termos da hierarquia interna daquela organização andina. E, em homenagem ao dia do trabalho, ou do trabalhador, iminente e eminente, é de se recomendar que os que me lerem se deem ao trabalho de visitar o dicionário, e verificar, entre outros, de que modo se imbricam ideia, ideal e ideologia. Conselhos, se fossem bons…

A Lua e a Rua

a rua e a lua
Abrimos este texto com um singelo poemínimo:

Solidão
Em noite de prata
na rua, fitando a lua
uiva o vira-lata.

Esse haicai, poema de origem nipônica aqui submetido às formulações do poeta modernista Guilherme de Almeida, relaciona um dos mais profundos sentimentos com uma das imagens mais significativas, ambos explorados pelo Romantismo, escola de índole subjetivista que tinha seu alicerce na mais pura e intensa expressão das emoções. Assim, os românticos cultuavam a noite e a lua como símbolo de transcendência do eu para o outro, do sujeito amoroso para o objeto de amor, quase nunca consumado e, pois, sempre à espera… espera… espera… Assim é que também servia à corporificação da imorredoura nostalgia do paraíso perdido, tema ao qual dedicaram especial interesse escritores e poetas da estirpe de John Milton, e que freudianos traduzem como experiência oceânica da unidade, e outros lhe conferem outros nomes: shangri-lá, horizonte perdido, utopia, neologismo criado pelo filósofo inglês Thomas Moore, denotando lugar que não existe (ut, inexistente; topos, lugar), Nova Atlântida, do filósofo Francis Bacon, A Ilha, de Aldoux Husley, com a utopia “A Ilha” e a distopia “Admirável mundo novo”, e assim por diante.
O poema-epígrafe que abre este artigo dialoga com este, de Cassiano Ricardo:

Serenata sintética
Rua
torta.
Lua
morta.
Tua
porta.

De onde também ganha importância a imagem visual do poema, já que a própria disposição das palavras na página sugere a tortuosidade da pequena rua, e os fonemas “t” e “r” são a imagem sonora dos passos dados na pequena rua calçada no caminho e caminhada até a casa da pessoa amada.

Quase misteriosamente, a lua exerce sua influência no comportamento humano, e animais parece não ficarem imunes a ela, a lembrarmos da implícita figura do lobo solitário e dos arroubos românticos e do culto à noite e dos proverbiais lunáticos etc., adjetivo derivado de lunae, luna, lua.

Mas a contraposição rua/lua não se deve tão somente à proximidade fônica e gráfica entre ambas, ou seja, escrita e pronúncia, rima. Visualmente, a relação entre a lua e a rua é um círculo flutuando por sobre uma linha, esta ainda representativa da linha do horizonte. Em recuo suficiente, o círculo torna-se um ponto, que, flutuando no vazio acima da linha, conforma no plano um triângulo com vértice pra cima e, se lhe acrescentarmos as outras dimensões, teremos uma pirâmide.
E na pirâmide temos a representação do escalonamento social, do determinismo cultural e demais influências e paradigmas vindos do alto e reverberando nas camadas mais baixas. Ditaduras unigênitas verticais que antes fertilizavam impositivamente o amplo solo das gramíneas humanas hoje precisam se render à inevitável evidência do sentido reverso, em que a rua fala e faz mais o que quer e menos o que desquer.

Se antes se podia valorizar a imaginada e almejada luminosidade dos páramos utópicos, hoje se pode concluir por uma gênese reversa, em que o efeito precede a causa e o que era virtual se torna cada vez mais real.

Pois é, poesia…

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