dizer e di-ser


yes I do

inspirado
pirado
irado
Ido
I do
I

amar
é percorrer o caminho
entre mim mesmo e o outro outro
outrizando-me de mimesmo
e mesmizando-no outro
e então o dizer se torna di-ser
e o caminhar
o des-caminhar de dois
E
entre nós dois, nós dois, nós um, um
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ser honesto consigo é o que consigo quando nada mais consigo
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as pedras que encontro no caminho, tiro algumas e atiro outras
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era tão egoísta, que não gostava de perder nada, nem peso, a pesar de si mesmo
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tem gente que acha que pra realizar um sonho basta continuar dormindo

se você tem a versão da história, eu tenho aversão da histeria
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o que for teu, chega sem ex-forço
o que nao for, te ex-força
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você é um sonho, que quero sonhar acordado
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sadismo: minhas lágrimas se afogam no teu fogo
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se for pra desistir, desista antes de existir, i.e., dexistir
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quando chorar, corar, é melhor orar
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a maior desgentileza é recusar palavras de gratidão com um “por nada ou de nada”, quando o outro só tem a palavra pra lhe presentear.
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mudei tanto
que quando sinto a falta de mim
refugio-me no meu canto
e canto encanto enfim
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AMOR É
CORAÇÃO

franqueza não é fraqueza
nem bondade, bundade
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às vezes pra ser mulher tem que ser:
melhor
malhar
molhar e
humilhar
um milhar
de homens
famintos
coitados
só querem coito
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paradoxo: se perco tudo, menos a esperança, é porque a esperança não estava no meu tudo
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só se tem a vista da montanha que se conquista
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compensação: escolher ir pra frente é deixar algo pra trás
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fé: parece que merece prece quem perece
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às favas as palavras diz quem não tem lavra nem palavra
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à dor da verdade e ao conforto da mentira, eu prefiro os dois; é o único jeito de o adulto não matar a criança
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liberdade: ela sempre está tão perto
que nunca me permite ter saudade
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a mente mente
eu minto
o ente sente
eu sinto

se minto é mente
se sinto é ente
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a dor vem
e passa
e passa
e passa…
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o caminho que decidimos é ao mesmo tempo o mais curto e o mais longo, pois somos nós mesmos ao mesmo tempo o caminhante e o caminho, e o destino você não vai alcançar um dia, se não o alcançar a cada dia
– – – –
crescer implica crer e ser; e ver pra crer depois de crer pra ver
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a única mentira de tua mente é que ela não mente
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anagramas

Certa vez uma amiga minha me contou um sonho que tivera à noite. Sonhou que ela vivia na Rússia e se chamava Tenaicra. Fiquei interessado no sonho, e lhe respondi que o sonho tinha alguma verossimilhança interna. Não que ela tivesse sido russa, nem vivido naquele país. Talvez, quem sabe. O verossímil da “história” é que, confirmei na prática, o nome que ela trazia, Tenaicra, é um anagrama perfeito de Caterina, um nome bastante comum na Rússia.
Pra quem não sabe, anagrama é a transposição de todas as letras de uma palavra de modo que se forme uma nova palavra, que muitas vezes nem sequer lembra a palavra original. Ainda em relação a Caterina (e a Tenaicra), esse nome originou um anagrama que serve, mesmo, de nome feminino dado a bebês. Trata-se de Natércia, que é morfologicamente mais próximo de Tenaicra. (Curiosamente, própria palavra anagrama se presta a um anagrama significativo: ama angra).
Isso nos faz lembrar o neofreudiano Lacan, que postula ser o inconsciente estruturado como linguagem. Interessante que, se assim o é, e ao se manifestar durante o sonho, o inconsciente muita vez traz expressões verbais claras ou implícitas. Eu mesmo sou testemunha desse funcionamento. Com frequência acordo à noite com algum sonho em que a palavra prevalece sobre a imagem, embora o contrário seja muito mais frequente. Certa vez, eu estava bem desgostoso com certa senhora, uma de cujas qualidades era massa corporal acima do normal, até então não qualificado eufemisticamente como plus size. Não que o plus-sizeness da madame importasse. O que me afetava era a sua atemporalidade: a senhora era sim sem hora.
Foi quando então, numa daquelas noites, acordei de madrugada ouvindo em minha mente as palavras “a droga da gorda”, “a droga da gorda”… “A droga da gorda?” “A drogada gorda?” – pensei. Percebi, então, que meu inconsciente regurgitava um insumo indigesto, em referência à não-digesta nem-dileta senhora, e percebi que se tratava de um palíndromo, uma palavra ou frase que pode ser lida de trás pra frente e de frente pra trás. Quem quiser conferir é só fazê-lo. “A droga da gorda” ou “a drogada gorda” me devolvia, algo compensatoriamente, o meu idem excesso de peso, e confirmava a minha não digestão de algo que, de algum modo, eu mesmo precisava assimilar.
A coisa era, mesmo, inexorável, e me flagrei que inexorável significa “aquilo que não se pode pôr goela afora”, i.e., que não se pode vomitar. E tive então a ocorrência de outro palíndromo, ÓTIMO VÔMITO, este substantivo que também pode ser lido como verbo: (eu) vomito. E tudo de acordo com a (a)temporalidade (re)versa do inconsciente. Pra finalizar, a passagem de “Sampa”, composição Velosísmica: és o avesso do avesso do avesso do avesso. E vice-versa. Ou verso?
(A propósito da ilustração, também pode ser lida: “Jesus te ama, seja Mateus”, ou seja, um dos evangelistas.)

pensamentos rimados

PALÍNDROMO
somamos: somos a soma do que amamos, somamos

nem feliz, nem triste
só entregue a tudo o que rexiste

faça, refaça e faça jus, até que o faça faça-se luz

democracia
se mudas, as palavras, nada mudas

a batalha mais ferrenha:
a luta entre o que você seja e o que tenha

(a)normal: ser louco num mundo louco, não é pouco
importa saber quem e o que realmente importa

trama:
ama quem te ama
na fama e na lama
no drama e na cama

a-deus
chorar basta

ch basta

calo ou grito
cru ou frito
meio me dito
não choro, mas sinto
não digo, mas sinto
não mostro, mas sinto
por isso, minto

o poeta se doa e não se perdoa em outras lavras que não a das palavras
quem não valoriza as pequenas alegrias não encontra a felicidade, que é feita de pequenas alegrias
a vida de quem é livre ofende quem odeia ser livre
vê no que dá? a queda por você me deixa derrubado o dia todo

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um cemitério longe demais

Um cemitério longe demais

Certas coisas são tão desimportantes, que sua única importância é serem desimportantes, isso porque importa saber que toda importância só tem a sua confirmação externa se tiver nossa confirmação interna.

Às vezes há um híbrido de duas coisas, uma importante com uma desimportante. Uma delas é a morte, a importante; a desimportamente é o sepultamento, preocupação mesmo involuntária dos que ficam.
Conheço um casal que, um dia, os dois preocupados com esse binômio, não deixar muita preocupação pros que ficam, etc., custos, funerária, etc., resolveram comprar um jazigo. Ficaram ambos de pesquisar, cada qual, e o fizeram. À noite, no outro dia, à mesa do jantar, o assunto em pauta, misturando amor dos que ficam à morte dos que vão, num “não deixe que amor-te chegue assim”, como tive ocasião de ilustrar em outra parte do meu site.
Mas, voltando à discussão dos dois, revelou ela que encontrara uma sepultura a preços bem convidativos, mesmo que para algo nada convidativo, nem com vida ativa. Ao revelar o local do descanso eterno, o cretino diz com objeção: esse cemitério é muito longe.
Não pude conter o riso, em arrivada gargalhada. A coisa era séria. Seria talvez fosse outra coisa de somenos importância. Mas não. E o maior absurdo é que ele não percebia o absurdo do que dissera.
Respondi, em lugar da amiga. Qual é a importância de o cemitério ser longe demais? É porque você todo dia ao fim do expediente vai morrer, precisar ir lá longe, e no outro dia desmorrer, e vir para longe. É, mesmo, um problema mortal. Disse-lhe: você tem razão. Afinal de contas, tua intenção está de acordo com o significado de cemitério, que é, poucos o sabem, dormitório ou lugar para dormir. Também não é à toa que grandes poetas e escritores relacionam morte e sono. Shakespeare, no famoso monólogo de Hamlet: “morrer, dormir; dormir, talvez sonhar”. Ernest Becker, com o aclamado “A negação da morte”, ganhador do Prêmio Pulitzer. Olavo Bilac, com o poema “No meio do caminho”, e assim por diante. Finalizando, uma piada.
Num teatro, peça de teatro em cena, um expectador dormindo na platéia. Na fila de trás, um senhor, incomodado com o sono do outro, toca-lhe o ombro e diz: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O outro parece nem notar. Repete o incomodado, novamente tocando-o no ombro: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O outro parece acordar, mas insiste o chato: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O ex-sonolento responde, irritado: vá pra puta que o pariu! – Jorge Amado.
Não sei qual dos dois eu represento.

poestesia

imerso neste imenso mar de gente
às vezes penso que meu verso onipotente
pode quebrar a corrente de tanta falta de senso

então paro, penso e percebo
que o feito máximo do meu verso
não passa de um efeito placebo

o fato e o boato


Quando a questão do fake news está bombando na mídia, é oportuno refletir sobre os efeitos deletérios dessa prática, que oscila entre o jornalismo sério e a fofoca deslavada.
De imediato não posso deixar de notar que, extrapolando o plano meramente verbal, sob a superfície de fato e boato, temos ato. Mais pra ato do que pra fato, ou pra boato? Quer dizer, de fato temos, de direito não. Mas o boato muita vez palpitante deixa a condição de fátuo e incendeia os ouvintes. Ou será o contrário? Não sei. Só sei que, fato ou boato, trata-se de ação ou ato humano. E isso mais se aplica de perto a boato, embora não fique longe de fato.
Fábula e fato, bula e lula. Pululam fatos, encabulam boatos; ou versa vice. A corroborar temos a afirmativa de que uma mentira, se repetida muitas vezes, se torna verdade. Não creio, nem sei, nem sei-o. Mas o fato é que o boato é o lúdico do ato; e o fato, nem sempre o lúcido. Boato falho, ato fálico. Fofocar é não ter algo melhor em que se focar. Mas vende. A vista e à vista; a propósito e por acaso. No fundo e no raso. E todos nós… alguma vez… se não temos vez… reduzimos a marcha… e remetemos… e metemos… e temos… e…? e…? he he he! Interrogar é preciso; exclamar, também.
Verdade seja dita, às vezes a mentira bem dita é bendita. Às vezes a verdade mal dita é maldita. Depende da vista em que você põe seu ponto. Mentirinha inocente, inconsequente, prudente, faz bem pra vista e pro dente. Pode ser. Já a verdade nua, dura, crua, cura e, perdão, às vezes curra. Nem sempre. Pode ser.
Estão aí as televisivas novelas, que, ao vê-las ou não vê-las, tanto faz como tanto fez… todos (…!…?) ganham. Quantos, quem, onde…? Fantasia e azia, com-vivem. A primeira é um sal de fruta que cura a acidez da última. Aliás, qual é a última? What´s up, its up to you, whatsapp.
Fica-se com o humor preso quando se fica com o terror solto. Ou finca-se? Entre ficar e fincar o n do não faz toda a diferença. Comedidas tragicomédias são comédias de mau gosto.
Terminando e brincando, entre o relato e o real ato sempre o palpitante boato é mais digerível que o causticante fato. Será…?…!

sem senso nem censura


Estavam aí, felizmente não estão mais, querendo fazer passar uma lei que não estaria nem aí com os ais, e com medo dos hahahas. Criminalizar o humor seria assustador, sério. Seria matar antes de nascer no texto o lúcido do lúdico, indissociáveis. Muito riso e pouco siso dizia o bordão sisudo, que queria o humor ficasse mudo. Confundia-se oral com (i)moral. Seria assustador, antes fosse assusta-dor, susta dor. Levaria a ter medo de ter medo, temer o…
Libelo contra a libélula em cujos olhos o poeta nipônico enxergava o distante e colossal monte Fuji: libélula cá/ traz nos olhos/ montanha de lá. Entendeu lucidamente o Tribunal que humor não é insulto, tampouco indulto a que se cometam outras atrocidades. Insulto ou elogio, a diferença está em quem faz e quem recebe, e no modo como se faz e como se recebe.
Lembro-me de um menino que conheci na infância e que, quando outro o xingou de fdp, ele respondeu, com incomum bom humor: poxa, amigo, você descobriu…! Só não espalhe, só não espalhe. O outro ficou desconcertado com o resultado que, esperava, fosse outro.
Anos depois eu mesmo faria uma dissertação sobre o humor verbal, sobre o chiste, a partir da abordagem psicanalítica de Freud, linguística de Possenti, e psicolinguística de Veras, em capítulos intitulados: Freud Explica, O Sírio levado a sério, De Veras a Verdade.
Pergunta, apropriadamente, a música: vc tem medo de quê? Deixa implícito que o medo se opõe à criatividade, e que, como diz Osho, todo medo é, em última instância, o medo da morte e que, se este fosse (e for) superado, eliminaria (e eliminará) todo e qualquer medo.
No paradigma do medo estão: vergonha, censura, desamor, violência, ilusão da segurança, temor ao futuro, negação do desejo. O medo é reacionário, quer dizer, contrário às promissoras mudanças. É anticriativo, propõe pensar com a cabeça dos outros. Finalizando, saudosa amiga minha fora conhecer a cálida brancura gélida das montanhas do Alasca. Em palpitante voo panorâmico, o franzino aviãozinho trepidava, tremia e tremulava ao sabor do inquietante vento. Tinha, então, de escolher: ou se deixava abater pelo medo paralisante, ou se entregava à inigualável beleza de instantes que possivelmente jamais se repetiriam em sua vida.
Não pensou com a cabeça dos outros, e jogou para depois o medo do instante. Entre ter medo e ser feliz, preferiu a segunda opção. Não se arrependeu. Felizmente, para sua feliz mente.

A IMPORTÂNCIA DA MEDIOCRIDADE

Jamais se pode subestimar a importância da mediocridade. Mesmo sob a superfície da história, médios, medianos e medíocres cumprem seu papel de manter e preservar o status quo, quer dizer, deixar as coisas como estão. E essas forças reacionárias têm sua existência justificada, porque substituíram o perigoso anseio de que as coisas melhorem pelo confortável receio de que piorem. E por certo não faltarão reacionários que, ao serem tratados como tais, achar-se-ão revolucionários, confundindo esse termo com reação, esquecendo-se de que a ironia permite ler reação como ação repetida, a reiteração da mesmice, ou, de modo mais sofisticado, o misoneísta horror à outridade (descobri, por acaso, a palavra misoneísmo, que, na Terra das Araucárias, adquire matizes bastante peculiares). Aqui, não faltam porta-vozes do já-consagrado-e-por-isso-inatacável, se hay desgobierno soy contra, o That’s incredible que, de incrível, só tem a excrescência da midiocracia, o savoir faire de quem só sabe fazer e refazer o já feito. São quixotescos generais que ainda travam batalhas já travadas e já vencidas, imemoriados que confundem memória com imemorial. Infaustos que receiam tudo quanto cheire ao mefistofélico espírito que tudo nega e contraria.

Resta o consolo de que tudo é passageiro, mesmo o motorista e o cobrador. “Aqueles que estão atravancando meu caminho, eles passarão, eu passarinho”, diz com gentileza o protesto do poeta.

Rei morto, rei posto. O velho deve morrer para dar lugar ao novo. O menino é o pai do homem. A midiocracia só admite a mediocracia da magiocracia, verdadeiro Mr. M que se propõe a desnudar as vestais da verdade cujas vestimentas já não passavam de rotas (derrotas) e surradas vestes. Maltrapilhos filhos que enfileiram como tesouros pilhas de tralhas e trastes e trapos.

Já se falou alhures sobre o papel das cortesãs nas cortes, sobre as galhofas dos bufões aos quais se permitia declarar mesmo a verdade mais escaldante amainada no humorismo dos trejeitos cênicos, sobre os homens de arte cuja genialidade desposou a bucólica simplicidade de camponesas cujos interesses não transcendiam a circularidade pragmática de meras 24 horas. É o mesmo pragmatismo que leva a mídia televisiva a espelhar o gosto popular, entendendo que seu papel é, mesmo, entreter, deixando aos intelectuais as intermináveis discussões sobre a função educativa da maior invenção do século vinte. Óbvio que, quando se alia entretenimento e cultura de modo inteligente, interessante e popular, melhor. Mas não se pode esperar que seja diferente do que é. Infelizmente, infeliz mente.

O POEMA PRÉ-EXISTENTE

Nos anos 40, uma atriz espanhola causava furor na terra de Cervantes. Mãe espanhola, pai italiano, Conchita Vecchio adotara o nome artístico Cita e, por razões cabalísticas, reduzira a tradução de Vecchio, Viejo, para Vejo. De formas opulentas, Cita Vejo era mesmo muito vistosa, atributo que não passou despercebido de poeta brasileiro. Ao vê-la, de imediato o bardo compôs: tudo o que vejo/ me excita/ quando vejo Cita Vejo.

Aqueles que conhecem a obra do poeta paranaense Paulo Leminski por certo terão de imediato desconfiado dessa nossa pequena farsa, com essa pequena paródia do poema leminskiano. O poema “verdadeiro” é: tudo o que li/ me irrita/ quando ouço Rita Lee.

Feito esse desmascaramento, porém, é de observar que ambos os poemas aproveitam ao máximo os signos verbais, ou seja, articulam a contento as palavras e as coisas, os referentes verbais e os objetos referidos, enfim, os significantes e os significados. No primeiro poema, como senhor absoluto de sua criação, já que não precisamos nos subordinar completamente ao jugo da palavra atrelada ao objeto e este àquela, podemos articular palavras e objetos na mais estreita relação possível entre ambos. Assim, articulamos com rigorosa precisão palavras e coisas, significantes e significados, condicionando reciprocamente a ambos. Essa mesma subordinação mútua pode ser repetida. Desse modo, podemos imaginar um poeta que se chamasse Rubro Pablo, que nos permitiria esta glosa bilíngüe: en todo lo que hablo/ me descubro/ quando leio rubro pablo. E o poema seria (é…) ainda mais significativo, se considerássemos que nosso poeta hipotético fosse hispano-brasileiro ou luso-hispânico, “fato” que ajudaria a justificar o uso de dois idiomas num mesmo poema. Imaginemos ainda tratar-se de um Fernando Pessoa: ando numa boa/ quando com fernando/ desvendo tua pessoa. E esses torneios verbais, legítimas células poemáticas, poderiam multiplicar-se à exaustão.

Mas, voltando à nossa tese do texto apriorístico, facilmente se constata que o poema de leminski explora ad nauseam os elementos pré-existentes, configurando a tal perfeição apregoada pelos românticos e parnasianos. Com efeito, o teste da perfeição é verificar se todos os elementos do poema se articulam de modo absolutamente necessário e pertinente, sem que nada se possa acrescentar nem diminuir. Em (1) — “tudo o que vejo/ me excita/ quando vejo Cita Vejo” —, os signos Vejo/vejo são mais próximos que Lee/li, em (2) — “tudo o que li/ me irrita/ quando ouço Rita Lee”. O absoluto poder criador de que dispomos em (1) (já que criamos nomes e seres nominados), vai se subordinar em (2), necessariamente, aos signos pré-existentes. Entretanto, se extrapolarmos um pouco em nosso direito de imaginar, suponhamos que o nome Lee fosse escrito Li — e não faltariam elementos que dessem verossimilhança (“versossimilhança”) à nossa suposição. Teria sido alcançada a mesma aproximação verificada em (1). E, lançando mão da liberdade (orto)gráfica da poesia de vanguarda, se eliminarmos a distinção maiúsculas/minúsculas, a assimilação de ambas as formas será absoluta: tudo o que li/ me irrita, quando ouço rita li. Mas a oposição “ouvir/ler” de (2) não se verifica em (1) (ver/ver); (1) alcança maior unidade. E, como estamos no plano de idealização do real, digamos ainda que a poesia de Rita Li (já com a liberdade de criação) fosse meramente gráfica, não fonográfica, à semelhança dos poetas que fazem poemas para serem lidos no papel. O poema leminskiano assim ficaria: tudo o que li/ me irrita/ quando leio rita li, aproximando-se bastante de (1). Levando mais adiante nossa liberdade co-criadora, suponhamos fosse o nome Lee/li, na verdade, Leio, o poema (2) teria paralelo absoluto em (1): tudo o que leio/ me irrita/ quando leio rita leio = tudo o que vejo/ me excita/ quando vejo cita vejo.

Verdadeiramente, pode-se ouvir/ouver nas entrelinhas/entressons de (2) certo tributo à intimidade do poeta curitibano com a poeta paulista. Pode-se imaginar a mesma intimidade entre o poeta “hipotético” de (1) com a hipotética atriz; caso em que vejo de (1) com ouço de (2) adquiririam conotação de familiaridade, de contato pessoal. Assim como nos permitimos supor a Rita cantora “poeta para ser ouvida” como uma “poeta para ser lida”, podemos (com o perdão do pleonasmo, absolutamente necessário) também aperfeiçoar a perfeição de (1), se imaginarmos/criarmos a situação algo cômica em que nossa hipotética Cita Vejo fosse, não uma atriz, mas, ora vejam — e se não estivermos abusando da liberdade de criação —, uma médica oculista e, mais a propósito ainda, minha amada, minha médica, amada médica, médica amada.

Isso posto, podemos nos deter um pouco sobre o processo criativo, cuja apropriação leva à sensação de que somos nós mesmos a origem da criação literária. A visão sincronística, porém, entenderia que o poema ocorre quando um dado fato (real ou imaginário) produz no poeta um dado efeito, num dado momento[1]. Sendo um pouco barrocos, podemos dizer que um dado poema ocorre quando um dado poeta ocorre num dado acontecimento que ocorre num dado momento. Embora muitos poetas tenham sido tocados pelo mesmo mote, é óbvio que uma mesma situação passa despercebida por alguns (muitos, a maioria…?). Recorrendo a um pensamento visto alhures, o poema ocorre quando o poeta tropeça nas coisas, e esse tropeço acontece amiúde, visão que rouba ao poeta parte do mérito da criação poética (Criei-te agora, poema./ Sou teu deus./ Ajoelha e me adora. – P.Leminski). Ainda recorrendo ao pensamento oriental, à visão místico-metafísica formulada por Bagwan Shree Rajneesh, o próprio pensamento não é nosso; nosso é o processo de pensar (“thoughts are not yours; yours is the thinking”).

A visão do poema apriorístico não seria muito simpática a poetas que preferem interpor sua pessoalidade artesã à universalidade da arte. O poeta e tradutor Geir Campos menciona, quiçá citando outrem, que o poema “são as melhores palavras na melhor ordem”. Talvez pudéssemos acrescentar que o melhor poema seria aquele em que pudéssemos criar as melhores coisas. Com efeito, se eu digo, por exemplo, João é uma águia, o enunciado nada, de per si, revela de poético. Entretanto, meu amigo Aguiar, a quem melhor quadraria dizer Aguiar é uma águia, nada tem de Haia nem de asa. Felizmente, porém, aqui não prevalece a verossimilhança, mas a versossimilhança. Um poeta amigo meu compôs: quando a ana se aninha/ no anil dos meus olhos/ eu fico feito passarinha/ pipilando por seus pimpolhos. Poeminha singelo, em que o poeta se dá a liberdade de tomar o epiceno passarinho e arranjar-lhe um feminino, que rima com aninha. Aninha, por sua vez, encerra a ambigüidade “verbo aninhar/ a Ana tornar-se pequena, Aninha”. Acontece que o poeta em questão tem olhos castanhos, mas o eu lírico, o eu poemático, tem os olhos que ele quiser, até guimarães róseos, se for o caso. E isso enseja um enunciado: o poema não tem compromisso com as coisas, já que não é um processo a respeito delas; tem, isto sim, compromisso com a palavra, já que é um processo a respeito da linguagem, como assevera Hugo Friedrich, em obra cuja leitura é extremamente recomendável: Estrutura da Lírica Moderna.

A poesia é a estigmatização da linguagem. Assim, por exemplo, se eu digo: João entrou em casa e tudo estava na maior escuridão, nada há de poético nisso. Entretanto, a coisa é diferente seu eu disser: Abreu abriu a porta: tudo um só breu.

De igual modo, se descubro/crio/monto este palíndromo, “a diva adotara para toda a vida”, minha função se resume à montagem de elementos apriorísticos, respeitando-lhes a natureza gráfica e procurando explorar-lhe ao máximo a possibilidade semântica, algo mutilada, já que não se sabe o que ou quem a diva adotara. Por outro lado, se crio/descubro/monto este outro: “ama cansado todas na cama”, a única objeção que conseguimos contrapor é a inexistência de vírgulas em “cansado”, questão de somenos importância.

Finalizando, poememos:

imerso neste imenso mar de gente

às vezes penso que meu verso onipotente

pode quebrar a corrente de tanta falta de senso

então paro, penso e percebo

o feito máximo do meu verso

não passa de efeito placebo.

[1] A noção de sincronicidade, de índole oriental, foi proposta por Jung como resposta à concepção de causalidade ocidental. Partindo da observação direta de certas ocorrências, Jung propôs o princípio segundo o qual dois acontecimentos simultâneos têm relação entre si, sem, contudo, um ser causa ou efeito do outro. O princípio das conexões acausais está exposto em “Sincronicidade”, ed. Vozes….

utopias

A palavra utopia foi cunhada pelo filósofo inglês Thomas More, mediante a junção de dois prefixos gregos: ut, inexistente, e topos, lugar. Daí a acepção de lugar ou estado ideal, em que o poder instituído estivesse comprometido com o bem-estar de todos. Houaiss registra ainda que, por extensão, trata-se de: projeto de natureza irrealizável; quimera, fantasia. Desnecessário dizer, portanto, que utopia se refere, em última instância, ao que Pierre Weil denominou “nostalgia do paraíso perdido”, sentimento que tem sido expresso em várias obras ao longo do tempo, desde A República, de Platão, A Nova Atlântida, de Francis Bacon, O Paraíso Perdido, do poeta John Milton, Lost Horizon, de James Hilton, A Ilha, de Aldoux Husley, e outros. Na contramão, citem-se as antiutopias ou distopias: Admirável Mundo Novo, de Huxley, Animal Farm e 1984, ambos de George Orwell, O Processo, de Franz Kafka, Eu, Robô, de Isaac Asimov, dentre outros, e realizações cinematográficas como Blade Runner e The Wall, por exemplo.

Entre a utopia e a distopia, troca-se a visão de um proverbial paraíso idealista pela acachapante submissão a uma sociedade que elimina a possibilidade de fugir a tais imperativos. O sujeito se vê subjugado a um sufocante Big Brother a cuja vigilância onipresente nada nem ninguém escapa. Entre a esperança e o cinismo oscila o anseio humano, ou primeira se esboroa no cinismo, ao trocar o colorido da idealização pelo negrume da inexorável admissão da concretude de um mundo que nem sequer se denomina imundo.

Imundícies à parte, algumas fazem parte do mundo; entretanto, bastam as naturais e inevitáveis; as outras… que vão à…

Seja como for, sonhar é preciso; é a mínima riqueza que resta ao sujeito quando se lhe roubam tudo. E o compensatório post-mortem não sirva de consolo. Arte é preciso; enfarte só se inevitável. A palavra, amiúde, é tudo o que resta, quando a lavra não presta. A larva tem de cumprir seu destino de borboleta. Haja asas.

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