mestres

Um dos capítulos mais fascinantes e, por isso mesmo, mais elusivos e cavilosos do caminho espiritual é o que diz respeito aos chamados Mestres Ascensionados. Não obstante possam representar o que Carl Jung chama de arquétipo do Self, o Si Mesmo, corre-se o risco de se projetar na sublime imagem que deles se faz o contraponto de nossa incompletude, carência essa que alhures recebe a sofisticada designação de inópia interior. Embora Jung assinale que o citado arquétipo do Self é representado por Jesus, é oportuno estender essa concepção a outros seres, desde que estes podem aqui e ali melhor representar nossos conteúdos internos.

A Ordem Rosacruz chama a atenção para o perigo do culto à personalidade, à possibilidade de desvirtuamentos e desvios do que chama de a Senda (Path). Entretanto, não deixa de mencionar um adágio que circula entre tantos peregrinos que se encontram no Caminho: Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. Mas assinala também que o verdadeiro mestre é o Mestre Interior, cuja voz todos deveríamos aprender a ouvir, como os Sussuros do Self, Intuição, Voz Espiritual e denominações análogas.

Aos incrédulos a concessão de que a única certeza é a da própria existência, em cima da qual todas as outras certezas se constroem e se relativizam. Há, contudo, a inegável necessidade de crer, a irrevogável esperança do sublime, a sublimação de nossa materialidade, enfim. Se se deve concordar com a asserção de que viver é carecer, há também de se admitir que à vacuidade se contrapõe a plenitude, e de que a pré-existência da primeira implica a existência da segunda, em inextricável codependência. Se aos seres ímpares projetamos nossa potencial e almejada completude, talvez possamos extrair dessa mesma carência a força de que precisamos para caminhar, sempre sob a certeza de que somos, cada qual, e ao mesmo tempo, o caminhante e o caminho…

perguntar (não) ofende?

Perguntas… e perguntas… e…

Quando eu era adolescente, e isso já lá vão algumas décadas, havia um programa humorístico televisivo em que o personagem afirmava: perguntar não ofende. E fazia uma pergunta cuja resposta não seria de fácil digestão. Muita vez essa visão de pura e simples inquirição e não inquisição tem servido ao propósito de buscar esclarecer uns tantos pontos e uns santos contos. Assim, mesmo correndo o risco de parecermos cínicos, o que efetivamente não é nossa intenção, quer dizer, nem parecer nem ser cínico, formulamos algumas perguntas cujas respostas ainda por vir demandam certa paciência e passividade cognitiva, a ser removida em futuro não muito remoto, esperamos.

Conheci, certa vez, um rapaz que fazia algumas afirmações algo provocativas. Três delas, que eu me lembro, tinham a ver com o que hoje se enquadra na questão de gênero. A primeira: meu lado feminino é lésbico. A segunda: aquele cara gosta tanto de mulher, que até queria ser uma. A terceira: fulana é tão feminina, que se fosse homem seria gay.

Fico me perguntando, cum grano salis, se tais afirmações hoje não o enquadrariam na acusação de homofobia ou ou coisa que orvalha ou valha que o coisa.

De minha parte, fico me perguntando se a Lei Maria da Penha se aplica ao caso de briga entre duas companheiras; se algum dia alguma delas vier a matar a companheira, será enquadrada no crime de feminicídio. E se um cotista xingar outro, poderá ser processado por racismo?

Parece que se alguém chamar uma mulher cuja massa corporal esteja bem acima da média de gorda pode ser processado; que o jeito é chamar de “plus size”, que diz mas esconde. Esconde onde? Nem no trem nem no bonde. Sinceramente, eu tenho um porte físico que me autoriza reivindicar o direito de ser chamado de “plus size”. Mas eu me sentiria diminuído; não quero ser chamado de “plus size”. O mesmo acha minha irmã. Que o marido diz ter ela excesso de gostosura (difícil não pensar sexo e gordura).

Eu não estranharia encontrar alguém que dissesse que o tal feminicídio é, na verdade, um esposicídio, namoradicídio, companheiricídio, no caso, mulhericídio. E nessa de cídio isto, cídio aquilo, haveria o crime de matricídio, patricídio, filhicídio, maridocídio, preticídio, judeucídio, ladrão cídio, politicocídio, etecétera e tal ecídio. E o a enquadrar bandidicídio teria duas modalidades: legal – o bandido ser matado pela polícia; ilegal: o bandido ser matado por outro bandido (bandido quem?). (E o policial matando outro policial que queria matá-lo mas ele matou antes…? Quá… quá… quá… quase piada…!) Sem (des)graça.

tiro no bolso

Jamais me esqueço de uma professorinha de um jardim de infância que disse a um menino que inflação é um bichinho que dá no bolso e come o dinheiro da gente. Explicação singela e eficiente para a criança, e não deixo de ainda sentir certo carinho pela professorinha que eu nem conheci. Fico ainda pensando no infeliz psicopata que se alinha a tantos outros doentes que não conseguem superar suas fobias e, projetando-as em líderes, tentam matá-las matando-os. Ideologias e americanismos à parte, uns tantos Lincolns, Kennedys, Luther Kings, encabeçam a lista de mártires da democracia, e essa psicopatologia ganha foros de onipresente ameaça principalmente num momento em que a maniqueísta oposição esquerda/direita se dilui e os atuais movimentos migratórios parecem evidenciar que a fraternidade da condição humana extrapola os limites de jurisdições territoriais e políticas cuja gênese remonta aos primitivos esforços de organização das forças humanas com vistas ao bem coletivo.

Com Leminski, confesso: sou poeta; com a cantora, completo: não aprendi a amar. Não bastasse, meu entendimento de política e economia é pífio, e meu interesse tardio por esses fatores da vida de um país não me facilita nem acelera a respectiva e necessária assimilação. Poesia por poesia, estou mais para o último parágrafo de A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa, em que o narrador se situa ante o derradeiro adeus, da derradeira curva do caminho extremo, como diria Olavo. Ainda com o inominado narrador de Rosa, sou homem de tristes palavras. E é tudo o que sei fazer. E o lirismo puro da palavra pura do poeta se contrapõe ao excessivo pragmatismo do ato do político de ação. Fico sem saber qual é o ponto limítrofe ideal na escala que se interpõe entre a virtualidade do pensamento puro e a realidade da ação concreta.

Não obstante todos esses obstantes, não se pode suicidar a cidadania, uma cidadania suicida, uma suicidadania. O infeliz que se deixa levar ao extremo de suas convicções extremadas merece (…?…!…) uma Extrema Unção. Extremados (não)sejamos.

sobreviver

sobreviver

Outro dia fiquei pensando se grande parte dos males do mundo não decorrem da deformação do instinto de sobrevivência. O Houaiss diz que sobreviver significa “permanecer vivo (após a morte de)”, “continuar a existir depois de (algo)”, acepções que apontam para a suplantação da morte pelo prolongamento da vida. Em outras palavras, matar a morte com o excesso de vida, ou de elementos que parecem garantir isso.

Fiquei pensando também no paradoxo que é viver, já que implica em morrer, e, ainda, que o grande lance da vida é fazer as pazes com a nossa morte, como o faziam os poetas simbolistas, mediante um enfoque transcendental das coisas. E também na relação (in)consciente entre amor/vida, amor/morte, já que amar é também morrer para si e em si e viver para o outro e no outro, e, com isso mesmo, realizar um alter ego, um “outreu”, um ele mais eu, um eleu, numa recuperação dos primórdios da percepção que tem a criança de si mesma, como um “ele”.

Pensei ainda que o universo, em sua economia cósmica (ia dizer universal), não quer perder ninguém, e isso dá algum sentido ao absurdo da existência. E aqui entra em questão a importância/desimportância maior ou menor que alguém/ninguém tem ou não tem. Vem ainda à mente o que Osho dizia/disse: todo medo é, em última instância, o medo da morte; e que, se perdermos o medo da morte, perderemos todos os outros medos.

Para terminar/iniciar, um poeminha:

escatologia

vista vazia

voz lerda

o coração cheio de perda

a alma rota

encontrando a rota

erma

por onde se perde

tudo o que se herda.

em terra de egos

Tem certas afirmações que são repetidas em certos meios e que assim o são porque ao que tudo indica parece que ninguém entende do que está falando. Uma delas é essa história de matar o ego. Acho que muitos acham que entendem. Eu também acho. Será? Serei?

O vero do verso do verbo é que o tal do ego é, nada-ninguém mais/nada-ninguém menos que o eu, esse serzinho nosso de cada dia(!), hora(!?), minuto(?), segundo (?!) – esses pontos em gradação porque parece que o eu/ego não está presente o tempo todo com a e/ou a mesma intensidade de ser. A verdade é que nem sempre somos onde estamos, nem estamos onde somos, pelo menos não com toda a intensidade de que somos (capazes).

É o caso de quando somos pegos em flagrante delito, flagra que não deleita e que preferíamos deletar. Certa vez, menino, fui pego colando numa prova de matemática. Doze anos de idade, segunda série ginasial, pequena escola de cidadezinha do interior. O professor me olhou com aquela cara de canibal faminto, e achei que eu, Adão, era mesmo o responsável pelos pecados do mundo. Fiquei aceso, alerta, olhando para todos os lados. Fiquei tão acordado que naquele dia não consegui fazer nenhum acordo com nada. Entre bater no vilão e aplaudir o herói, fiquei mesmo com as bolas trocadas.

Não creio que a coisa fosse assim tão vermelha, mas a idade e a distância me autorizam colorir com os matizes e intensidades que o metal/mental que me resta me autoriza. Aliás, uma das coisas mais gostosas que o tempo de vida nos faz fazer é palavrizar o passado ou passadizar a palavra, repalavrizando e repassadizando (repassa-dizendo).

Mas voltando à questão do ego: todo ego é cego, quando a mente mente. Aliás, muita vez ambos são sinônimos, irmãos gêmeos, e se tu não geme-os, nem sempre te a-tendem do jeito que te melhor-é. Mas sem essa de matar, mas de meter o ego, motor de todas as tuas metas, matas, mitos, motos (saudades da minha Shadow, 750, preteada, “The shadow knows”). “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” – coitado de Deus e do próximo… com esse amor tão débil… Tenho debitado e debilitado.

neurose
em terra de egos
quem tem olho é caolho

pra boa escrita: dá um esc na rita

Uma amiga minha, chamada Rita, me contou que leu na biografia da atriz sua homônima, Rita Hayworth, um episódio pitoresco. Depois de ter feito o filme que a consagrou, “Gilda”, personagem sensual e sedutora, a atriz disse que os homens dormiam com a Gilda e acordavam com a Rita. Quer dizer, iam para a cama com a ideal e acordavam com a real. Belos tolos.

Entretanto, essa contraposição me fez lembrar uma frase que publiquei em um artigo de minha autoria, em que dizia: “Entre o verme e o anjo oscila o homem, debatendo-se em meio a suas duas naturezas”. O artigo, de quando ainda universitário estudante eu era, intitulava-se “Sejamos humanos”. Hoje, chistosamente, eu diria “sejamos humanos, se não homenos”, em que se pode ler “ho-menos” e “home-nos”, indicando uma espécie de poética pareidolia verbal, também referida alhures.

Assim é que nos permitimos ler em escrita “esc – rita”, teclinha tão útil na telinha macro do meu micro. O significado “escapar” parece indicar ser preciso fugir a limitações de qualquer ordem na escrita de um texto, porém não ao par Rita/Gilda, desde que um norte implica um sul, aonde vamos e onde estamos. Se é verdade que a palavra vem do inconsciente e que este se estrutura como linguagem, nos dizeres de Lacan, e que a relação intrapessoal precede e matiza a interpessoal, não se deve ter exagerado respeito pela palavra, mas intimidade, desde que, como expressa a palavra “expressão”, expressão significa “pressão para fora”. De onde terem razão os poetas/escritores modernistas, entre os quais Mário de Andrade, que aconselhava o aspirante a escritor não ter censura alguma com a palavra que ele se permita deixar vir à tona e, pois, à escrita, agora sem a divisão Gilda/Rita – escrita/ esc-rita. Tenho escrito, cotidiano rito.

descoisar a coisa

A palavra mais versátil da língua portuguesa é, sem dúvida, coisa. Serve tanto para xingar quanto para demonstrar afeto. Para designar algo que não se sabe como e se quer explicitar, e designar algo que se sabe e não se quer explicitar. Quer dizer: define sem definir, e não define definindo: essa coisa horrorosa; coisinha linda do papai; qualquer coisa serve; coisa medonha; coisa esquisita; coisa ruim; coisa boa, etcoisa e tal.

Parece, no entanto, que o uso mais legítimo e por legitimar de coisa consta na palavra república, que, do latim, rex-publica, significa, precisamente, coisa pública/Coisa Pública. De onde ser legítimo exprimir: essa Coisa Pública está, mesmo, uma coisa…! Coisa e tal e tal e coisa. Chistosamente: coisa que o valha ou que o falha; valha que o coisa ou falha que o coisa. Pública ou púbica, infelizmente a diferença nem sempre é uma mera explicitação ou ocultação de uma simples letra. L de letargia, luto, lúgubre, larápio; mas também de lar, legítimo, luta, legal – este último adjetivo duplamente significativo, já que também denota algo bacana, batura, supimpa, jóia, enfim. (Hoje ilegítimo acentuar o substantivo/adjetivo “joia”, mas sinto tanto a falta que, em fim, jóia.)

Observe-se, finalmente, que Coisa Pública, em maiúscula, denota o Poder Público, instituído, legitimado, legalizado, diferentemente de coisa pública, que alhures e algures merece/mereceria se lhe omitisse o L.

a terceira margem do rio – Guimarães Rosa

1. Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.
2. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
3. Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação. Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de pálida, mascou o beiço e bramou: — “Cê vai, ocê fique, você nunca volte!” Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” Ele só retornou o olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito um jacaré, comprida longa.
4. Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram, tomaram juntamente conselho.
5. Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa; ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença, que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas — passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava e viajava s’embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se arrependia, por uma vez, para casa.
6. No que num engano. Eu mesmo cumpria de trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava. Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas. Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim, ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu, não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso, que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não se demonstrava.
7. Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o ‘dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo, vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há, por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele.
8. A gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça, por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver. Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes, no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também, não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
9. Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum conhecido nosso achava que eu ia ficando mais parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de tempos em tempos fornecia.
10. Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum meu bom procedimento, eu falava: — “Foi pai que um dia me ensinou a fazer assim…”; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade. Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que, então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento, ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã chorou, nós todos aí choramos, abraçados.
11. Minha irmã se mudou, com o marido, para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam, no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez, residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo, diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos.
12. Sou homem de tristes palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques, ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira, brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro. Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia.
13. Sem fazer véspera. Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou, então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: — “Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto… Agora, o senhor vem, não carece mais… O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!…” E, assim dizendo, meu coração bateu no compasso do mais certo.
14. Ele me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n’água, proava para cá, concordado. E eu tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não podia… Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão.
15. Sofri o grave frio dos medos, adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.

hoje dizeres

Entre mim e o outro, amar é outrizar-me de mim mesmo e mesmizar-me no outro, de modo que, sem ser o outro, eu o seja.

não (re)nego meu (c)ego

o corpo envelhece; a alma, só se você deixar
então, o corpo envelhece e a alma envilece

quem confia em alguém, fia e fica com ela, fia com

luto e reluto e refuto
e fico puto

valorização do casamento (?): se o jr se divorciou 7 vezes, casou 8

gente grossa
na vida nossa
não há quem possa

tesão: você é um acordo gordo, que só de acordar todo me mordo

com a carteira vazia, azia faz e fazia
com o coração partido, sou bom partido
só minto com o estômago faminto

porque jesus me ama, não quer dizer que precisa aguentar o cheiro do meu chulé

tudo o que cabe no cabide, não cabe em você quando você não cabe em si

não seja melhor que ninguém, nem pior; só melhor
a vida é curta, por isso curta a vida

a parceria pareceria par, mas só par seria se não pareceria ser

não se prenda a nada que te prenda

raízes e asas, tua casa cósmica
raízes e raízes, tua casa sísmica
asas e asas, tua casa cômica

muita asa e pouca raiz é felicidade rasa
muita raiz e pouca asa é vida rasa
muita raiz e muita asa, ah, é extratosférico
e é isso que eu me busco em mim e não mim

questão de rima
não se sabote
só se bote
pra cima

coloque o b adequado
( )est ( )asta ( )esta ( )osta

se-rio fal(h)ando

sempre soul eu, mesmo quando não soul, porque essa minha soul-idade nunca me deixa soul.

quando fracasso, preciso do teu abraço; quando venço, compenso no teu regaço

arrogância: quando concordo com você, ambos estamos errados; quando discordo, também. Mas prefiro errar junto com você do que qualquer coisa sem você

o que que eu faço/ se só tenho um traço e um abraço? Entre o teu e o meu espaço, eu traço um abraço? Com você a minha força é mais forte, minha vida tem um norte, e nem minha morte é minha morte, minha sorte eu suporte.

Numa sociedade mantida mentida mente, muita liberdade de mentira sofre a pressão da liberdade de prisão.
Enemies of freedom attack liberty.
cuidado com a liberdade de ex-prisão
respeito mesmo aos não amigos do peito
só lâmpadas acesas atraem nosso olhar e insetos

ironia: certas coisas você só merece no mesmo dia em que perece

perdoar é livrar-se do lixo que o outro fez ver que já estava em você

minha escolha
deusou

liberdade suprema:
libertar-se de tudo
e, depois, libertar-se
da própria liberdade

ando devagar
vagando
de vagão em vagão
vagalhão em vão

paradoxo da generosidade:
dar a alguém o que nem mesmo se tem

se você não começar agora
não começará nunca, porque o agora
é sempre um eterno e presente agora

só sabemos nossa força
quando somos forçados a saber

as pessoas são como livros:
algumas só capa
outras conteúdo
e algumas, tudo
eu prefiro as duas, preferivelmente em uma

um amigo meu diz: meu lado feminino é lésbico. Pode ser processado por homofobia? e uma mulher, também?

sou ressou e tressou
por isso sou insouportável

quem confunde bondade com fraqueza
precisa de bondade com franqueza

todo mundo tem apreço
alguns, apreço de quem ama
outros apreço de banana

é muito vazia a vida
de quem é muito cheio

não se prenda a nada que te prenda

quem não renasce todo dia que nasce
está morto

quem ama o drama
não come dia

não nos torture com o excesso de sua presença
a outros: presenteie-nos com o excesso de sua ausência

pensar é pesar; ser feliz não é ter razão
se teu não é o lugar, pare de se alugar

vai e volta uma hora que quero de mim ir embora
quando só corro, peço socorro

Deletar pode ser uma forma de amar. Mas prefiro deitar e deleitar
todo excesso queria ser exsexo

gostar de você é o primeiro passo pra gostarem de você

eternidade: o hoje sem o ontem aspirando ao amanhã

a armadura mais dura pra proteger o coração mais mole

a normalidade é uma máscara que colocamos ao acordar pra podermos nos relacionar com os outros; mas sozinho de madrugada com seus sonhos, você sabe que você é louco

eu me amo quando te amo

não quero alguém que morra de amores por mim, mas que viva…

quem não valoriza o que tem, nunca tem o que tem

a copa e o copo

Um dos fatores do processo de criação de um palíndromo é a justaposição de letras, e sílabas e palavras ocorridas ao sabor do andamento do próprio processo. É divertido. A propósito da copa e do copo, montou-se em mim este palíndromo:

AO SERVIL SEM O TIDE DÓI GOL E REAL E VILA ATIVE O ADAO ELOGIA AI GOLE O ADÃO EVITA ALI VELA E RELÓGIO EDITO MÊS LIVRE SOA

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