Em meus textos aqui publicados, tenho procurado lhes conferir títulos provocantes que, conquanto nem sempre apontem para verdades incontestes, indicam caminhos da submissão a aprovação ou não de vários e variados testes. Para tanto, não nos furtamos à tentação de lançar mão de recursos linguísticos aqui e ali metatextuais, como o chiste, o trocadilho, jogos de palavra e jogos de espírito, e recursos fonéticos e fonológicos como rimas, aliterações, assonâncias, mesmo expondo-nos ao risco de arriscar a credibilidade de nosso texto. Isso deixamos à costumeira sisudez dos textos acadêmicos, empreitada que temos de enfrentar em nossa luta e labuta cotidiana, como profissional das letras e artes, na oscilação entre a forma e a norma. Recorremos, ainda, à criação de (neo)logismos, com “neo” entre parênteses a satisfazermos quem nos queira acusar de redundantes já que, aborrecidamente, “neo”, por significar novo, não admitiria o verbo criar. Afirmação algoz não isenta de algo de pedante autoafirmação. Seja-nos, pois, isso desculpado.
Assim, ao intitularmos este texto com: Os aliados não existem, estamos, em verdade, partindo da máxima cartesiana, “Cogito, ergo sum”, que, não obstante a comum tradução, “Penso, logo existo”, tem merecido a tradução mais adequada “Penso, logo sou”, sendo de rigor a distinção entre o manifesto existir e o virtual ser.
Assim é que nos sentimos autorizados a afirmar que os aliados não existem, não sem antes atentarmos para o necessário adendo: os aliados não existem; os aliados são. Em outras palavras, estando a existência desatrelada da essência, pode-se afirmar que os aliados são, isto é, se constituem na relação que estabelecem com o indivíduo, e tendo, pois, alguma independência em sua atuação a partir do inconsciente.
A motivação deste artigo adveio da dúvida que alguém manifestara sobre a existência dos aliados, em post que dizia, mais ou menos, “aqui está a prova de que os aliados existem”. Fiquei interessado pela necessidade de autoconvencimento da moça de quem procedia o referido post, e decidi escrever esta matéria e intitulá-la como o fiz, não obstante a não muito agradável suposição de que o título lembra o bordão de conhecido “parapsicólogo” de forte sotaque espanhol que a mídia televisiva ressuscitara dos insaudosos e insalubres idos da década de mil novecentos e…, desculpem-me, você tenta.
Os aliados, aqui, referem-se à denominação que expressões cosmogônicas e cosmológicas conferem às manifestações da constituição psicobiofísica do homem, expressões essas provenientes do xamanismo, visão de mundo de índole animista. Por hoje, aliás, aliados…
