
A palavra mais versátil da língua portuguesa é, sem dúvida, coisa. Serve tanto para xingar quanto para demonstrar afeto. Para designar algo que não se sabe como e se quer explicitar, e designar algo que se sabe e não se quer explicitar. Quer dizer: define sem definir, e não define definindo: essa coisa horrorosa; coisinha linda do papai; qualquer coisa serve; coisa medonha; coisa esquisita; coisa ruim; coisa boa, etcoisa e tal.
Parece, no entanto, que o uso mais legítimo e por legitimar de coisa consta na palavra república, que, do latim, rex-publica, significa, precisamente, coisa pública/Coisa Pública. De onde ser legítimo exprimir: essa Coisa Pública está, mesmo, uma coisa…! Coisa e tal e tal e coisa. Chistosamente: coisa que o valha ou que o falha; valha que o coisa ou falha que o coisa. Pública ou púbica, infelizmente a diferença nem sempre é uma mera explicitação ou ocultação de uma simples letra. L de letargia, luto, lúgubre, larápio; mas também de lar, legítimo, luta, legal – este último adjetivo duplamente significativo, já que também denota algo bacana, batura, supimpa, jóia, enfim. (Hoje ilegítimo acentuar o substantivo/adjetivo “joia”, mas sinto tanto a falta que, em fim, jóia.)
Observe-se, finalmente, que Coisa Pública, em maiúscula, denota o Poder Público, instituído, legitimado, legalizado, diferentemente de coisa pública, que alhures e algures merece/mereceria se lhe omitisse o L.
