tiro no bolso

Jamais me esqueço de uma professorinha de um jardim de infância que disse a um menino que inflação é um bichinho que dá no bolso e come o dinheiro da gente. Explicação singela e eficiente para a criança, e não deixo de ainda sentir certo carinho pela professorinha que eu nem conheci. Fico ainda pensando no infeliz psicopata que se alinha a tantos outros doentes que não conseguem superar suas fobias e, projetando-as em líderes, tentam matá-las matando-os. Ideologias e americanismos à parte, uns tantos Lincolns, Kennedys, Luther Kings, encabeçam a lista de mártires da democracia, e essa psicopatologia ganha foros de onipresente ameaça principalmente num momento em que a maniqueísta oposição esquerda/direita se dilui e os atuais movimentos migratórios parecem evidenciar que a fraternidade da condição humana extrapola os limites de jurisdições territoriais e políticas cuja gênese remonta aos primitivos esforços de organização das forças humanas com vistas ao bem coletivo.

Com Leminski, confesso: sou poeta; com a cantora, completo: não aprendi a amar. Não bastasse, meu entendimento de política e economia é pífio, e meu interesse tardio por esses fatores da vida de um país não me facilita nem acelera a respectiva e necessária assimilação. Poesia por poesia, estou mais para o último parágrafo de A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa, em que o narrador se situa ante o derradeiro adeus, da derradeira curva do caminho extremo, como diria Olavo. Ainda com o inominado narrador de Rosa, sou homem de tristes palavras. E é tudo o que sei fazer. E o lirismo puro da palavra pura do poeta se contrapõe ao excessivo pragmatismo do ato do político de ação. Fico sem saber qual é o ponto limítrofe ideal na escala que se interpõe entre a virtualidade do pensamento puro e a realidade da ação concreta.

Não obstante todos esses obstantes, não se pode suicidar a cidadania, uma cidadania suicida, uma suicidadania. O infeliz que se deixa levar ao extremo de suas convicções extremadas merece (…?…!…) uma Extrema Unção. Extremados (não)sejamos.

sobreviver

sobreviver

Outro dia fiquei pensando se grande parte dos males do mundo não decorrem da deformação do instinto de sobrevivência. O Houaiss diz que sobreviver significa “permanecer vivo (após a morte de)”, “continuar a existir depois de (algo)”, acepções que apontam para a suplantação da morte pelo prolongamento da vida. Em outras palavras, matar a morte com o excesso de vida, ou de elementos que parecem garantir isso.

Fiquei pensando também no paradoxo que é viver, já que implica em morrer, e, ainda, que o grande lance da vida é fazer as pazes com a nossa morte, como o faziam os poetas simbolistas, mediante um enfoque transcendental das coisas. E também na relação (in)consciente entre amor/vida, amor/morte, já que amar é também morrer para si e em si e viver para o outro e no outro, e, com isso mesmo, realizar um alter ego, um “outreu”, um ele mais eu, um eleu, numa recuperação dos primórdios da percepção que tem a criança de si mesma, como um “ele”.

Pensei ainda que o universo, em sua economia cósmica (ia dizer universal), não quer perder ninguém, e isso dá algum sentido ao absurdo da existência. E aqui entra em questão a importância/desimportância maior ou menor que alguém/ninguém tem ou não tem. Vem ainda à mente o que Osho dizia/disse: todo medo é, em última instância, o medo da morte; e que, se perdermos o medo da morte, perderemos todos os outros medos.

Para terminar/iniciar, um poeminha:

escatologia

vista vazia

voz lerda

o coração cheio de perda

a alma rota

encontrando a rota

erma

por onde se perde

tudo o que se herda.

em terra de egos

Tem certas afirmações que são repetidas em certos meios e que assim o são porque ao que tudo indica parece que ninguém entende do que está falando. Uma delas é essa história de matar o ego. Acho que muitos acham que entendem. Eu também acho. Será? Serei?

O vero do verso do verbo é que o tal do ego é, nada-ninguém mais/nada-ninguém menos que o eu, esse serzinho nosso de cada dia(!), hora(!?), minuto(?), segundo (?!) – esses pontos em gradação porque parece que o eu/ego não está presente o tempo todo com a e/ou a mesma intensidade de ser. A verdade é que nem sempre somos onde estamos, nem estamos onde somos, pelo menos não com toda a intensidade de que somos (capazes).

É o caso de quando somos pegos em flagrante delito, flagra que não deleita e que preferíamos deletar. Certa vez, menino, fui pego colando numa prova de matemática. Doze anos de idade, segunda série ginasial, pequena escola de cidadezinha do interior. O professor me olhou com aquela cara de canibal faminto, e achei que eu, Adão, era mesmo o responsável pelos pecados do mundo. Fiquei aceso, alerta, olhando para todos os lados. Fiquei tão acordado que naquele dia não consegui fazer nenhum acordo com nada. Entre bater no vilão e aplaudir o herói, fiquei mesmo com as bolas trocadas.

Não creio que a coisa fosse assim tão vermelha, mas a idade e a distância me autorizam colorir com os matizes e intensidades que o metal/mental que me resta me autoriza. Aliás, uma das coisas mais gostosas que o tempo de vida nos faz fazer é palavrizar o passado ou passadizar a palavra, repalavrizando e repassadizando (repassa-dizendo).

Mas voltando à questão do ego: todo ego é cego, quando a mente mente. Aliás, muita vez ambos são sinônimos, irmãos gêmeos, e se tu não geme-os, nem sempre te a-tendem do jeito que te melhor-é. Mas sem essa de matar, mas de meter o ego, motor de todas as tuas metas, matas, mitos, motos (saudades da minha Shadow, 750, preteada, “The shadow knows”). “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” – coitado de Deus e do próximo… com esse amor tão débil… Tenho debitado e debilitado.

neurose
em terra de egos
quem tem olho é caolho

pra boa escrita: dá um esc na rita

Uma amiga minha, chamada Rita, me contou que leu na biografia da atriz sua homônima, Rita Hayworth, um episódio pitoresco. Depois de ter feito o filme que a consagrou, “Gilda”, personagem sensual e sedutora, a atriz disse que os homens dormiam com a Gilda e acordavam com a Rita. Quer dizer, iam para a cama com a ideal e acordavam com a real. Belos tolos.

Entretanto, essa contraposição me fez lembrar uma frase que publiquei em um artigo de minha autoria, em que dizia: “Entre o verme e o anjo oscila o homem, debatendo-se em meio a suas duas naturezas”. O artigo, de quando ainda universitário estudante eu era, intitulava-se “Sejamos humanos”. Hoje, chistosamente, eu diria “sejamos humanos, se não homenos”, em que se pode ler “ho-menos” e “home-nos”, indicando uma espécie de poética pareidolia verbal, também referida alhures.

Assim é que nos permitimos ler em escrita “esc – rita”, teclinha tão útil na telinha macro do meu micro. O significado “escapar” parece indicar ser preciso fugir a limitações de qualquer ordem na escrita de um texto, porém não ao par Rita/Gilda, desde que um norte implica um sul, aonde vamos e onde estamos. Se é verdade que a palavra vem do inconsciente e que este se estrutura como linguagem, nos dizeres de Lacan, e que a relação intrapessoal precede e matiza a interpessoal, não se deve ter exagerado respeito pela palavra, mas intimidade, desde que, como expressa a palavra “expressão”, expressão significa “pressão para fora”. De onde terem razão os poetas/escritores modernistas, entre os quais Mário de Andrade, que aconselhava o aspirante a escritor não ter censura alguma com a palavra que ele se permita deixar vir à tona e, pois, à escrita, agora sem a divisão Gilda/Rita – escrita/ esc-rita. Tenho escrito, cotidiano rito.

descoisar a coisa

A palavra mais versátil da língua portuguesa é, sem dúvida, coisa. Serve tanto para xingar quanto para demonstrar afeto. Para designar algo que não se sabe como e se quer explicitar, e designar algo que se sabe e não se quer explicitar. Quer dizer: define sem definir, e não define definindo: essa coisa horrorosa; coisinha linda do papai; qualquer coisa serve; coisa medonha; coisa esquisita; coisa ruim; coisa boa, etcoisa e tal.

Parece, no entanto, que o uso mais legítimo e por legitimar de coisa consta na palavra república, que, do latim, rex-publica, significa, precisamente, coisa pública/Coisa Pública. De onde ser legítimo exprimir: essa Coisa Pública está, mesmo, uma coisa…! Coisa e tal e tal e coisa. Chistosamente: coisa que o valha ou que o falha; valha que o coisa ou falha que o coisa. Pública ou púbica, infelizmente a diferença nem sempre é uma mera explicitação ou ocultação de uma simples letra. L de letargia, luto, lúgubre, larápio; mas também de lar, legítimo, luta, legal – este último adjetivo duplamente significativo, já que também denota algo bacana, batura, supimpa, jóia, enfim. (Hoje ilegítimo acentuar o substantivo/adjetivo “joia”, mas sinto tanto a falta que, em fim, jóia.)

Observe-se, finalmente, que Coisa Pública, em maiúscula, denota o Poder Público, instituído, legitimado, legalizado, diferentemente de coisa pública, que alhures e algures merece/mereceria se lhe omitisse o L.

hoje dizeres

Entre mim e o outro, amar é outrizar-me de mim mesmo e mesmizar-me no outro, de modo que, sem ser o outro, eu o seja.

não (re)nego meu (c)ego

o corpo envelhece; a alma, só se você deixar
então, o corpo envelhece e a alma envilece

quem confia em alguém, fia e fica com ela, fia com

luto e reluto e refuto
e fico puto

valorização do casamento (?): se o jr se divorciou 7 vezes, casou 8

gente grossa
na vida nossa
não há quem possa

tesão: você é um acordo gordo, que só de acordar todo me mordo

com a carteira vazia, azia faz e fazia
com o coração partido, sou bom partido
só minto com o estômago faminto

porque jesus me ama, não quer dizer que precisa aguentar o cheiro do meu chulé

tudo o que cabe no cabide, não cabe em você quando você não cabe em si

não seja melhor que ninguém, nem pior; só melhor
a vida é curta, por isso curta a vida

a parceria pareceria par, mas só par seria se não pareceria ser

não se prenda a nada que te prenda

raízes e asas, tua casa cósmica
raízes e raízes, tua casa sísmica
asas e asas, tua casa cômica

muita asa e pouca raiz é felicidade rasa
muita raiz e pouca asa é vida rasa
muita raiz e muita asa, ah, é extratosférico
e é isso que eu me busco em mim e não mim

questão de rima
não se sabote
só se bote
pra cima

coloque o b adequado
( )est ( )asta ( )esta ( )osta

se-rio fal(h)ando

sempre soul eu, mesmo quando não soul, porque essa minha soul-idade nunca me deixa soul.

quando fracasso, preciso do teu abraço; quando venço, compenso no teu regaço

arrogância: quando concordo com você, ambos estamos errados; quando discordo, também. Mas prefiro errar junto com você do que qualquer coisa sem você

o que que eu faço/ se só tenho um traço e um abraço? Entre o teu e o meu espaço, eu traço um abraço? Com você a minha força é mais forte, minha vida tem um norte, e nem minha morte é minha morte, minha sorte eu suporte.

Numa sociedade mantida mentida mente, muita liberdade de mentira sofre a pressão da liberdade de prisão.
Enemies of freedom attack liberty.
cuidado com a liberdade de ex-prisão
respeito mesmo aos não amigos do peito
só lâmpadas acesas atraem nosso olhar e insetos

ironia: certas coisas você só merece no mesmo dia em que perece

perdoar é livrar-se do lixo que o outro fez ver que já estava em você

minha escolha
deusou

liberdade suprema:
libertar-se de tudo
e, depois, libertar-se
da própria liberdade

ando devagar
vagando
de vagão em vagão
vagalhão em vão

paradoxo da generosidade:
dar a alguém o que nem mesmo se tem

se você não começar agora
não começará nunca, porque o agora
é sempre um eterno e presente agora

só sabemos nossa força
quando somos forçados a saber

as pessoas são como livros:
algumas só capa
outras conteúdo
e algumas, tudo
eu prefiro as duas, preferivelmente em uma

um amigo meu diz: meu lado feminino é lésbico. Pode ser processado por homofobia? e uma mulher, também?

sou ressou e tressou
por isso sou insouportável

quem confunde bondade com fraqueza
precisa de bondade com franqueza

todo mundo tem apreço
alguns, apreço de quem ama
outros apreço de banana

é muito vazia a vida
de quem é muito cheio

não se prenda a nada que te prenda

quem não renasce todo dia que nasce
está morto

quem ama o drama
não come dia

não nos torture com o excesso de sua presença
a outros: presenteie-nos com o excesso de sua ausência

pensar é pesar; ser feliz não é ter razão
se teu não é o lugar, pare de se alugar

vai e volta uma hora que quero de mim ir embora
quando só corro, peço socorro

Deletar pode ser uma forma de amar. Mas prefiro deitar e deleitar
todo excesso queria ser exsexo

gostar de você é o primeiro passo pra gostarem de você

eternidade: o hoje sem o ontem aspirando ao amanhã

a armadura mais dura pra proteger o coração mais mole

a normalidade é uma máscara que colocamos ao acordar pra podermos nos relacionar com os outros; mas sozinho de madrugada com seus sonhos, você sabe que você é louco

eu me amo quando te amo

não quero alguém que morra de amores por mim, mas que viva…

quem não valoriza o que tem, nunca tem o que tem

um cemitério longe demais

Um cemitério longe demais

Certas coisas são tão desimportantes, que sua única importância é serem desimportantes, isso porque importa saber que toda importância só tem a sua confirmação externa se tiver nossa confirmação interna.

Às vezes há um híbrido de duas coisas, uma importante com uma desimportante. Uma delas é a morte, a importante; a desimportamente é o sepultamento, preocupação mesmo involuntária dos que ficam.
Conheço um casal que, um dia, os dois preocupados com esse binômio, não deixar muita preocupação pros que ficam, etc., custos, funerária, etc., resolveram comprar um jazigo. Ficaram ambos de pesquisar, cada qual, e o fizeram. À noite, no outro dia, à mesa do jantar, o assunto em pauta, misturando amor dos que ficam à morte dos que vão, num “não deixe que amor-te chegue assim”, como tive ocasião de ilustrar em outra parte do meu site.
Mas, voltando à discussão dos dois, revelou ela que encontrara uma sepultura a preços bem convidativos, mesmo que para algo nada convidativo, nem com vida ativa. Ao revelar o local do descanso eterno, o cretino diz com objeção: esse cemitério é muito longe.
Não pude conter o riso, em arrivada gargalhada. A coisa era séria. Seria talvez fosse outra coisa de somenos importância. Mas não. E o maior absurdo é que ele não percebia o absurdo do que dissera.
Respondi, em lugar da amiga. Qual é a importância de o cemitério ser longe demais? É porque você todo dia ao fim do expediente vai morrer, precisar ir lá longe, e no outro dia desmorrer, e vir para longe. É, mesmo, um problema mortal. Disse-lhe: você tem razão. Afinal de contas, tua intenção está de acordo com o significado de cemitério, que é, poucos o sabem, dormitório ou lugar para dormir. Também não é à toa que grandes poetas e escritores relacionam morte e sono. Shakespeare, no famoso monólogo de Hamlet: “morrer, dormir; dormir, talvez sonhar”. Ernest Becker, com o aclamado “A negação da morte”, ganhador do Prêmio Pulitzer. Olavo Bilac, com o poema “No meio do caminho”, e assim por diante. Finalizando, uma piada.
Num teatro, peça de teatro em cena, um expectador dormindo na platéia. Na fila de trás, um senhor, incomodado com o sono do outro, toca-lhe o ombro e diz: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O outro parece nem notar. Repete o incomodado, novamente tocando-o no ombro: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O outro parece acordar, mas insiste o chato: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O ex-sonolento responde, irritado: vá pra puta que o pariu! – Jorge Amado.
Não sei qual dos dois eu represento.

Os aliados não existem

Em meus textos aqui publicados, tenho procurado lhes conferir títulos provocantes que, conquanto nem sempre apontem para verdades incontestes, indicam caminhos da submissão a aprovação ou não de vários e variados testes. Para tanto, não nos furtamos à tentação de lançar mão de recursos linguísticos aqui e ali metatextuais, como o chiste, o trocadilho, jogos de palavra e jogos de espírito, e recursos fonéticos e fonológicos como rimas, aliterações, assonâncias, mesmo expondo-nos ao risco de arriscar a credibilidade de nosso texto. Isso deixamos à costumeira sisudez dos textos acadêmicos, empreitada que temos de enfrentar em nossa luta e labuta cotidiana, como profissional das letras e artes, na oscilação entre a forma e a norma. Recorremos, ainda, à criação de (neo)logismos, com “neo” entre parênteses a satisfazermos quem nos queira acusar de redundantes já que, aborrecidamente, “neo”, por significar novo, não admitiria o verbo criar. Afirmação algoz não isenta de algo de pedante autoafirmação. Seja-nos, pois, isso desculpado.
Assim, ao intitularmos este texto com: Os aliados não existem, estamos, em verdade, partindo da máxima cartesiana, “Cogito, ergo sum”, que, não obstante a comum tradução, “Penso, logo existo”, tem merecido a tradução mais adequada “Penso, logo sou”, sendo de rigor a distinção entre o manifesto existir e o virtual ser.
Assim é que nos sentimos autorizados a afirmar que os aliados não existem, não sem antes atentarmos para o necessário adendo: os aliados não existem; os aliados são. Em outras palavras, estando a existência desatrelada da essência, pode-se afirmar que os aliados são, isto é, se constituem na relação que estabelecem com o indivíduo, e tendo, pois, alguma independência em sua atuação a partir do inconsciente.

A motivação deste artigo adveio da dúvida que alguém manifestara sobre a existência dos aliados, em post que dizia, mais ou menos, “aqui está a prova de que os aliados existem”. Fiquei interessado pela necessidade de autoconvencimento da moça de quem procedia o referido post, e decidi escrever esta matéria e intitulá-la como o fiz, não obstante a não muito agradável suposição de que o título lembra o bordão de conhecido “parapsicólogo” de forte sotaque espanhol que a mídia televisiva ressuscitara dos insaudosos e insalubres idos da década de mil novecentos e…, desculpem-me, você tenta.

Os aliados, aqui, referem-se à denominação que expressões cosmogônicas e cosmológicas conferem às manifestações da constituição psicobiofísica do homem, expressões essas provenientes do xamanismo, visão de mundo de índole animista. Por hoje, aliás, aliados…

Virtual x real

Virtual x real
Outro dia um aluno, interessado em ampliar sua compreensão a respeito do que é virtual, me perguntou se um anjo é virtual. Pergunta inesperada, exigia reflexão. Entregando-me ao fluxo do pensamento, fui lhe respondendo à medida do que me vinha à mente. Primeiro é preciso compreender que o virtual, por definição, é potencial, passível de vir a se manifestar fisicamente, de ganhar concretude real. Pense na relação entre a virtualidade da palavra e a realidade da coisa por ela nomeada. O significado é virtual, o objeto é real. Do mesmo modo, uma cédula monetária é real; o valor, virtual. A cédula é um título de crédito ao portador, e tem seu valor determinado pelas relações de troca: hoje vale tanto, amanhã nem isso. Se dólar, mais ou menos.
A relação entre o virtual e o real recupera as preocupações dos filósofos entre ato x potência, o caminho entre a virtualidade da palavra e a coisa concreta, valor de troca x valor de venda, significante x significado, a abstração de conceitos como o de poesia versus sua objetificação num poema, a doença x o doente, língua x fala, etc., etc.
Mas retomando a pergunta que originou esta reflexão, se um anjo é virtual, respondi ao aluno: se existem, de fato, os anjos, o que se nos parece ser possível apenas numa dimensão imaterial, incorpórea, etérea, espiritual, enfim, eles serão, por necessidade de sua natureza, reais. E a inexorável conclusão é a de que apenas não os percebemos, pelo menos não com as costumeiras faculdades sensoriais. E deveríamos ver com alguma admissão de verdade as afirmações daqueles que afirmam poderem vê-los. De onde, também, supormos que, analogamente aos demais sentidos, possivelmente se trata de uma faculdade cada vez mais presente entre as comuns faculdades sensoriais da maioria das pessoas. Assim, em os anjos existindo, para aqueles que dizem percebê-los (e aqui estamos supondo que de fato os percebem), os anjos são reais; para todos os demais, são e estão virtuais, havendo, pois, a possibilidade de deixar de sê-lo, quando (e se…) os perceberem.
E aqui cabe propor a existência de graus de virtualidade, já que se pode admitir a maior ou menor proximidade entre as duas esferas: virtual e real. Estamos pensando, por exemplo, na relação entre o valor de uma moeda virtual versus o valor de uma moeda de papel. A concretude desta última não lhe garante maior valor, virtual, que a virtualidade da primeira. Assim, também, cabe postular que uma emoção é mais virtual que uma sensação, que uma lei é mais virtual que sua aplicação, que uma intenção é virtual e sua concretização a retira dessa condição, que um pecado se dá por pensamento, palavras e obras, que uma injúria pode se tornar um crime, que uma palavra encerra significados virtuais em via de se tornarem menos virtuais, que a vontade é a potencialidade das potencialidade, e assim por diante, que querer fazer é uma vontade em busca de uma manifestação concreta, física, etc., etc.
Finalizando, não obstante a crença de que tudo se resume a crenças, cremos existir apenas uma não-crença: a de que existimos.
Por hoje, cartesianamente, cogito ergo sum, i.e., penso, logo existo; hoje, penso… logo… existo…

Zona de conforto x zona de acomodação

Zona de Conforto x Zona de Acomodação
O famoso verso de Shakespeare, que pergunta, “o que há num nome?” – “uma rosa, se tivesse outro nome, teria o mesmo perfume”, traz à baila o primordial interesse que desperta no homem a relação entre a palavra que nomeia e a coisa nomeada. Efetivamente, nem é preciso dizer, embora não sejam a mesma coisa, na mentalidade algo infantil de muita gente ambas se confundem e fundem. A representação se torna ação; o boato ato, fato e artefato; a palavra lavra e larva; o substantivo, substância e instância. Toque-toques na madeira após algo dito que não é bem-dito nem bendito, atores que sofrem agressões físicas na rua, de gente que não os distingue dos personagens que eles interpretam, os proverbiais tabus linguísticos que levam à criação de dezenas de eufemismos, etc., etc., são indícios de estagnação na fase de aquisição da linguagem, etapa do desenvolvimento da personalidade em que “todos” deveriam deixar de tomar a linguagem pela realidade. Mas não é isso que acontece, e essa etapa não superada talvez explique em parte por que o Brasil está se tornando o país da mordaça, que torna a fala pura e simples, de mera expressão verbal, em crime. Talvez subjacente a isso esteja o temor de que a virtualidade do dito se converta na concretude do feito, e transforme a verbalidade do boato em realidade do fato.
Tudo isso está implícito na vigente preocupação com o “politicamente correto”, e a questão que aqui se pode levantar é em que medida essa preocupação, que não vai tão e muito além da pura verbosidade, quiçá verborragia, em que medida essa preocupação não serve para mascarar o próprio objeto designado, como se mudar o nome atribuído a algo mudasse o próprio algo, algoz mesmo. Assim é que o delinquente juvenil se torna o menor infrator; o sonegador de impostos, depositário infiel; o presidiário, interno ou apenado, e a penitenciária, casa de custódia. Favela deixou de o ser, hoje é comunidade, e um programa matinal na TV tinha um quadro com o nome “Beleza na Favela”, depois rebatizado de “Beleza na Comunidade”, e ficamos pensando que a inteligência televisiva desconsiderou um ofensivo “Bela da Favela” porque a rima, ao acentuar pela identidade fônica, i.e., a rima, deixava entrever, entreler ou entreouvir a suposição de que seria surpreendente haver em tal espaço urbano expressões estéticas dali destoantes, surrealismo, mesmo. Esforços louváveis a quem de direito… mas e de fato…?
Já se disse alhures (Mallarmé e outros): quando se dá nome aos bois, corre-se o risco de perder a própria boiada. Mas o versa-vice também é verdade (caetaneando velozicamente): “o avesso do avesso do avesso” desconfirma “o avesso do avesso do avesso do avesso”, isto é, ou seja, em outras palavras, ou melhor, i.e., melhor dizendo, em suma: a realidade nua e crua é maquiada pela verbalidade vestida e travestida. Hoje, favela é comunidade; penitenciária, casa de custódia; toxicômano, drogaadito; presidiário, interno; marginal, excluído, etc., etc. O paradoxo da palavra é que, ao mesmo tempo que ela revela, também esconde; mas para quem sabe rever e reler, ao mesmo tempo que ela esconde, também revela. E as entrelinhas se tornam cintilantes estrelinhas, a nos lembrarmos da saudosa Clarice Lispector: “Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”.
Despoetizando, não nos devemos incomodar com a zona de conforto, mas com a de acomodação. “Pensar fora da caixinha” só confirma que, dentro da caixinha, não é pensar, de modo que pensar é, pleonasticamente falando, fora da caixinha. É preciso trocar os impróprios móveis para fora do próprio imóvel, não apenas trocá-los de lugar dentro do imóvel.
Tudo isso para deixarmos implícitos os plágios e roubos. Para bom entendedor, meia palavra é mentira. A mente mente, infeliz-mente. Olho olha olho que o olha.
Por oje é ojeriza. Hoje riso.

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