A moral é um conjunto de princípios legitimados pela sociedade e que, em tese, devem nortear o comportamento dos indivíduos que a integram. Nem sempre explícito ou explicitado, o princípio norteador às vezes se torna obsoleto, ultrapassado, e o que era aceito deixa de ser. A moral se confunde com a ética, nem sempre de fácil distinção. Moral vem do latim, moralis/morus, e indicava simplesmente costume. Já ética vem do grego, ethos, e diz mais respeito a uma atitude que se tem, em primeiro lugar, para consigo mesmo e, por consequência, para o coletivo. De onde se inferir que moral tem mais a ver com a aparência; ética, com essência. Moral, ligada aos tabus, refletem as máscaras sociais; ética, atrelada a valores que se pretendem e pretendam perenes.
De onde lermos dentro do adjetivo/substantivo moral o adjetivo oral, e encontrarmos na relação entre oralidade e moralidade nosso tema de hoje, desde que nosso país tem se tornado o que outrem já dissera, o país da mordaça, que criminaliza mesmo a própria expressão oral que, em tese, deveria constituir um dos pilares da democracia. E isso afirmamos não sem certo desconforto, pois o peixe morre pela boca e os da lavra pela palavra. Pelo menos é o que se tem visto na e pela mídia, explicitamente, os meios de comunicação. Cuidado com que opinas, tuas palavras assassinas, podem cometer chacinas, é o que eu diria se… se… se… sei lá o quê.
Mas confesso desde já que não tenho vocação pra mártir, talvez só pra Marte e, supremo, morte, de sorte que, se me faltar arte, que me leve, misericordioso, leve enfarte. Indelével… de leve.
Outro dia fomos alertados para o significado do verso de Fernando Pessoa, “navegar é preciso, viver não é preciso”. Meu interlocutor fazia ver que preciso, aqui, não deve ser lido como verbo, mas como adjetivo, o que traduz o verso em “navegar é exato, viver não”. (Obrigado, Professor Marcelo.)
Citamos isso para introduzir o pensamento de que a oralidade, como um primeiro reduto da moralidade, tem sido objeto de abjetas transformações e acolhido diletas formações. Pelo menos no tocante à sexualidade a oralidade corre solta, e quem quiser ler esta frase mesma com a conotação sexual vigente se sinta à vontade. (Curiosamente, quando estávamos digitando “um primeiro reduto”, cremos ter quase cometido um ato falho, pois estava saindo “redutor”. Psicologismos…)
Ocorre que a tal moralidade tem um tanto de hipocrisia, teria dito um não hipócrita. A ética, por definição, não. Em tempos do politicamente correto, e muita vez chato, o próprio advérbio “politicamente” contamina o adjetivo “correto”. Outro dia ouvimos na televisão uma escolinha infantil que ensinava às crianças o “politicamente correto”. Aquela gentinha linda cantava, inocente, “eu não atirei o pau no gato”. A bem intencionada professorinha não percebia que, ao acrescentar o advérbio não à inconsequente cantiga infantil, tornava regra a exceção. Como se fosse necessário você afirmar que, pelo menos naquele dia, você não cometeu mal algum. Nem oral, nem moral.
Quem quiser ver a hilária ilustração, visite o site:
https://lojagatamia.com.br/plaquinha-mdf-surtei-e-atirei-o-pau-na-dona-chica.html