hipérbole

A hipérbole é um exagero na linguagem, exagero necessário à expressão de algum pensamento que ficaria aquém do que se pretendia. Quer dizer: exagerar é preciso; viver, também.

Esse truísmo verbal decorre da tal pandemia que deixou, felizmente, de se tornar um pandemônio (deixou…?…!). Quer dizer: não! Pelo menos quando era apenas uma epidemia. Já, pandemia… Quando se trocou o prefixo “epi”, perto, por “pan”, geral, universal, a coisa ficou do capeta, um pandemônio, termo criado pelo poeta inglês John Milton, no poema Paraíso Perdido, para designar a indesejável confusão entre pessoas e coisas etc.

Mas o texto vem a propósito de que a tal “-demia” chegou aos poucos e, crescendo, deixou todos loucos (nem todos, creio). Ninguém tinha experiência direta e concreta com o que veio, viu e não vai vencer. Entre a desexperiência e a desesperança há um caminho que jamais vai ser vencido. E a esperança é de que esta experiência sirva para lidar com as outras “demias” que sempre estão a surgir.

siglas

SIGLAS

Certas siglas, pela constância do uso, acabam adquirindo certa independência morfológica dentro da linguagem e, com isso, maior proeminência que aquilo que designam. É de citar os casos das universidades UNICAMP, USP, UFSC e UFRJ, dentre outras. Aqui também se enquadram, por mera observação empírica, a UFPR e, obviamente, a UTFPR, assim como era também o caso do antigo CEFET. Aqui também se encaixam: ONU, OTAN, FGTS, INSS, IRF, COPEL, CPF, CEP, FUNAI, PIB, TRE. Por serem abreviativas, acabam adquirindo precedência e, pois, preferência no uso linguístico do dia a dia.

Elas facilitam a comunicação, e nem sempre é fácil de lhes recuperar a própria designação que lhes deu origem e, diga-se de passagem, isso só constitui entrave quando se necessita saber o que designam. É o caso de CAPES, SUDENE, ANVISA, ANAC.

As siglas, porém, não se confundem com abreviaturas. Estas são reduções e possuem características específicas, dentre as quais o fato de que nem sempre essa redução gráfica acarretar redução fônica, o principal exemplo dos quais é “etc”.

O uso linguístico atual tem dispensado o uso de pontos, e isso é especialmente aplicável a siglas longas, e já se admite que estas sejam grafadas com maiúscula apenas a inicial: Bovespa, Embratel, Fgts, Ufrj, Anvisa, Capes, etc.

Mas o caso mais significativo de uma sigla que adquiriu independência morfológica e, pois, legitimidade de vocábulo, é, parece-nos, ibope, originalmente sigla que indica Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística. Passou a integrar expressões como: isso não dá ibope; aquele programa de tv tem ibope alto, sendo, aqui e ali, substituído pelo substantivo não matizado “audiência”.

flexão de gênero e número

Aconselha-se prestar atenção à designação original para saber se se trata de masculino ou feminino. Assim, por exemplo, é “a” DOPS, e não “o” DOPS, já que se trata de Delegacia da Ordem Política e Social; “a” CEASA (Central), “o” Unicef (Fundo) e, rigorosamente, “a” DDD (discagem)

 

 

GPS

Quase não mais se dá conta de que Senai significa Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial, Senac, Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial, etc.

Finalizando, a abreviatura “etc.”, do latim “et cetera”, significa “e outras coisas”. Não deveria, portanto, vir precedida de vírgula; entretanto vem, por força da tradição do uso.

 

Em tempo, o substantivo composto dia a dia não mais se escreve com hífen, segundo o acordo ortográfico vigente. Vige… vigi… víxi…

Corriquindo Egívocos

CORRIQUINDO EGÍVOCOS
Nunca é tarde para mudar. E a esse verdadeiro bordão da oposição à permanência, a tentação é retrucar: nunca é cedo para tardar. Como já dizia a tirada humorística do impagável Grouxo Marx: “eu jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio”. Chamar de tirada humorística em referência a esse extraordinário representante do povo mosaico, é pleonástica redundância, com o perdão da redondância. E aqui também cabe lembrar outra tirada tirada não sei de quem, a respeito do trabalho: trabalhar pra quê…, pra sustentar um pobre vagabundo como eu que não quer nada com o trabalho?
1º de Maio, Dia do Trabalho ou do trabalhador? Mas dia do trabalhador não seriam e são todos os dias? E a tentação é imaginar um trabalhador sem muitos recursos intelectuais achando que, em primeiro de maio, eu não maio. Nos outros dias de trabaio, só quano dismaio, diz maio. Até eu publicar este texto, não sei se vou publicar este texto. Seja como for…
lembramos a afirmação equivocada de um matuto brasileiro a quem foi confiada a liderança de um grupo de aspirantes a chaman, shaman e xamã, nas grafias espanhola (original do chileno que deu à luz a organização andina), americana, que serve de norte à adoção de termos e usos linguísticos, e portuguesa (de direito portuguesa, mas fato brasileira, desde que a maioria dos integrantes daquela organização é constituída de lusitanos brasileiros e nenhum lusitano lusitano). A afirmação equivocada, algo poetificada pela pronúncia e grafia daquela nacionalidade, asseverava que o substantivo espanhol “trabajo” vem de “traer abajo”, i.e., “trazer abaixo”. A ideia é de que o trabalho “xamânico” vem do alto, se realiza por isso. A ideia de manifestação aí implícita não é de todo inadmissível se aceitarmos a ótica do animismo como a mais antiga expressão da índole religiosa da natureza humana ainda não contaminada pela civilização e, portanto, natural. Na ocasião, não nos pudemos manifestar dado o contexto em que a afirmação era feita. Semanas depois, ante a retomada da falsa etimologia em diferente circunstância, pudemos referir que trabalho vem de tripalium, instrumento de tortura da antiguidade, constituído de três paus, dois formando uma cruz, um “X”, pregado sobre o terceiro fincado no chão. O relato bíblico menciona a morte de Pedro no tripalium, e cabe ainda lembrar que originalmente o trabalho era amaldiçoado, conforme o Gênesis, um verdadeiro castigo sentenciado como punição em acréscimo à expulsão do Jardim do Éden.
Corrigido o equívoco, inocente equívoco, desconheço o efeito exercido ou a exercer (se houve ou houver) no líder do grupo que tão somente repetia o que ouvira de instância a ele superior em termos da hierarquia interna daquela organização andina. E, em homenagem ao dia do trabalho, ou do trabalhador, iminente e eminente, é de se recomendar que os que me lerem se deem ao trabalho de visitar o dicionário, e verificar, entre outros, de que modo se imbricam ideia, ideal e ideologia. Conselhos, se fossem bons…

É possível x pode-se

É possível afirmar x pode-se afirmar
Hoje retomo minha coluna CORRETANDO, para discutir um uso linguístico algo inadequado. Trata-se da alternância no uso de “é possível…” versus “pode-se”, aplicáveis aos verbos de dizer, a exemplo de afirmar.
Quando se diz “(1) é possível afirmar”, a tônica da ação recai sobre a possibilidade; quando se diz “(2) pode-se afirmar”, a tônica da ação recai sobre o sujeito indeterminado, implícito no pronome “se”, ou seja, “alguém, todos, alguns”, indeterminado, pode afirmar. Observe-se que “(1)”, “é possivel afirmar”, denota um âmbito virtualmente infinito, já que o branco do papel admite qualquer tipo de afirmação, por mais absurda, incomensurável, inaceitável, etc., que seja. O mesmo não ocorre com “pode-se afirmar”, já que o sujeito aí implícito vai ser, inexoravelmente, finito, a menos que se refira a Deus ou…
Compliculismos textuais à parte, ambas as formulações – (1) e (2) – cumprem a função de diluir, parcialmente ao menos, a responsabilidade por aquilo que se está afirmando; entretanto, (2) traz implícito como que um pedido de autorização para afirmar o que se vai afirmar, já que, como já afirmamos, a tônica da ação, a “responsabilidade” pela afirmação, recai no sujeito, em tese, indeterminado, que, embora gramaticalmente indeterminado, pragmaticamente não o é, pois indica o autor do texto que se está lendo.
O uso de “é possível…” x “pode-se” responde pela modéstia que em geral se espera de um texto acadêmico; é quase um pedido de desculpas antecipado. O absurdo, porém, é que a tal “modéstia”, tendo gerado o tal “plural de modéstia”, que substitui o “eu” pelo “nós”, pode se confundir formalmente com o “plural majestático”. Em outras palavras, por não admitir o uso do pronome pessoal de primeira pessoa do singular – “eu” -, o texto acadêmico passou a admitir o uso, implícito, de “nós”, e construções “chatas” como “estudaram-se vários textos”, “buscou-se analisar”, “pretendia-se averiguar”, etc., hoje dão lugar a “estudamos vários textos”, “buscamos analisar”, “pretendíamos averiguar”, construções mais “digeríveis” (e dirigíveis…, com o perdão do chiste).
Para finalizar, lembramos da letra de uma música norte-americana, gravada por vários cantores (e.g., Frank Sinatra, Perry Como, Elvis Presley…), denominada “It’s Impossible”. A letra diz, em tradução nossa (i.e., minha), coisas do tipo: “é impossível mandar o sol sumir do céu”, “é impossível pedir para um bebê não chorar”, etc. Ora, como a referência é ao próprio texto, não é impossível mandar o sol sumir do céu, nem pedir para um bebê não chorar. O que é certo é que nem o sol nem o bebê vão cumprir o que se lhes pede. A música, porém, termina com a conclusão: “…assim, também, é impossível viver sem o seu amor”.
Impossibilidades demais por hoje.

Corretando

CORRETANDO
Após mais de quarenta anos revisando e corrigindo textos acadêmicos e de outras naturezas, sinto-me no direito de tecer alguns comentários a respeito de erros e não-erros colhidos ao sabor das saudáveis e doentias ambulâncias e perambulâncias cotidianas. Lembro, porém, o poemínimo de Leminski: rio do mistério/ o que seria de mim/ se me levassem a sério?
Isso pra dizer desse modo que muita vez me subordinarei aqui nem tanto à norma, senão à forma: a forma/ conformada/ vira norma./Precisa então ser transformada. Isso também para assinalar que não mais confundimos sisudez com seriedade, pertinácia com pertinência, eficácia com eficiência. Assim não nos furtaremos aos trocadilhos, jogos de palavras, chistes, rimas, plasticidades verbais, e coisas que tais, mais totais que parciais, mais macias que marciais.
Começar pelo começo não é redundância, redondância, redonda ânsia. No início era o cio, e o cio estava com eu, e o cio era eu. E o cio se fez carne e habitou entre nós, nós cegos, nós górdios, nós todos.
“BRASIL, UM PAÍS DE “TODOS””
Essa injunção do governo de antanho era mesmo uma anta linguística. As aspas que pusemos em “todos sinaliza um enfoque irônico, figura de linguagem que visa significar o oposto do que se diz textualmente. Pergunta: o que significa esse pronome indefinido, “todos”? Por definição, o pronome indefinido não define. Deixa implícito, talvez. Certamente (e o advérbio de modo certamente confere certa relatividade à certeza), mas certamente todos, aqui, significa “todos os brasileiros”, e é de supor os aqui nascidos e que não rejeitaram sua nacionalidade, porém e os que rejeitaram sua nacionalidade, ao se expatriarem e a “outra pátria” deles exigir a renúncia à sua natural nacionalidade? Isso ocorre. Certamente os estrangeiros que obtêm a cidadania brasileira estarão implícitos naquele “todos”.
Se o pronome indefinido “todos” é aqui mesmo estranhável, mais o é (…!…) o artigo indefinido “um” aplicado a “país”, já que, vindo a frase de onde vem e de quem vem, o substantivo Brasil é, de fato e de direito, e muito, definido. É, afinal, a palavra do governo, e do governo brasileiro, e da época repatriada e repatriável, etc., etc., etc. Considerações feitas, a “verdadeira” frase seria esta: Brasil, de todos os brasileiros.
Leminskiando: tudo dito/ nada feito/ fito e deito.
Em tempo: pensamos em inaugurar uma coluna, e este seria/será, terá sido seu primeiro texto, pretexto, contexto. Nome da coluna: corretando…

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