CARMA, PODE SER VENDIDO?
Já se tornou proverbial afirmar que o mundo acolhe muito bem os ingênuos. A ingenuidade ou inocência, aqui tomadas como sinônimas, não é senão outra expressão para a falta de consciência. O grande lance do universo é produzir consciência; no plano humano, autoconsciência e, no plano mais amplo, a chamada consciência cósmica, que aqui grafamos em minúscula para manter graficamente a implícita relação que a última guarda com a primeira. Diga-se ainda que, no plano humano, da consciência em acepção de “percepção” decorre a consciência em acepção de “senso moral”, este ainda em desenvolvimento e, portanto, ainda não muito consolidado e generalizado, a lembrarmos que o substantivo “moral” advém de “moralis”, i.e., “relativo aos costumes”. Assim é que, sendo os costumes sócio-históricos, atrelados, portanto, ao tempo e espaço, corroboram a noção de inexistir uma moral universal, ou seja, que se possa aplicar a toda a humanidade. De onde também a asserção de que Deus é amoral (e não imoral), e nossa criatividade linguística nos leva a enxergar amor em amoral, percepção não de todo despropositada já que, como dizem cosmogonias da maioria das religiões: “Deus é amor”; “o amor é a lei de Deus”; “é por meio do amor que Deus governa o universo”, e assim por diante. Aqui talvez devêssemos usar a chamada “maiúscula alegorizante”, a denotar a supremacia desse componente do universo, maior que a sua expressão humana. Não o fazemos por nos lembrarmos do dizer de Agostinho: “quando o homem chega ao extremo do humano, atinge o divino”; o que nos faz questionar a pertinência da expressão “amor incondicional”, algo pleonástica, a nos referirmos ao propalado “amor verdadeiro”, discussão que extrapola os limites a que ora nos cingimos e fica, pois, para outra ocasião. (En passant, ocorre-nos a contraposição “amor humano” versus “amor divino”.)
Digressões à parte, voltemos a nosso tema: carma. Contrariamente ao uso popular do termo, não se trata de castigo, punição, vingança…, mas de compensação, volta ao equilíbrio, “justiça” cósmica, etc. A expressão católico-cristã dos pecados por “pensamentos, palavras e obras” vem em nosso auxílio. A expressão seria melhor formulada em “intenções, emoções e ações”. (Lembre-se que “emoção” vem do latim “ex-movere”, i.e., “mover para fora”, ou seja, aquilo que vem de dentro e sai para fora, e “ação” é a melhor tradução para o substantivo sânscrito “carma”; grafias à parte). Efetivamente, a injunção católico-cristã pode ser tomada como pertinente ao carma e sua aquisição. Entretanto, refere-se apenas à visão negativa do carma, uma vez que aquilo de bom que acontece conosco também é carma. Há quem entenda o “carma positivo” como “darma”, e nos perguntamos em que medida a grafia e a fonética do substantivo os têm impertinentemente aproximado.
Esta matéria, porém, não será, talvez, senão pecado por pensamentos, palavras e obras, ou, como imodestamente o dissemos, “intenções, emoções e ações”. Pretende responder (íamos dizer, por força de ofício, “corrigir”) a equívocos que ouvimos na montanha Condor Blanco: de que pode-se vender (e, portanto, comprar) o carma; de que um simples corte de cabelo pode cortar o carma; de que o carma é tão-somente individual.
Em primeiro lugar, o carma é principalmente coletivo, i.e., atinente a grupos das mais variadas dimensões. O principal deles é a família (biológica ou de criação), a de que procedemos e a que de nós procede. Das interações entre as “intenções, emoções e ações” do grupo familiar decorrem as experiências a que o grupo e seus componentes estão sujeitos. Depreende-se disso que os carmas estão entrelaçados, e o dos pais afeta o dos filhos, e o destes se submete ao daqueles. Por amor, ambas as gerações assumem experiências recíprocas, e, contrariamente ao que se propala por aí, só o amor é caminho, não a dor. Esta advém das inadequações aos ditames daquele. Obviamente a referência não é à dor física.
Isso leva à conclusão de que o Supremo Governante não é um um supremo comerciante, nem um juiz aleatório que decide arbitrariamente o destino de seus fregueses humanos. Essa nossa irreverência tem algo de ironia e arrogância intelectual; seja-nos perdoada.
O outro equívoco foi ouvido de uns tantos presentes na montanha e que recorriam ao corte de cabelo “xamânico” (não o cabelo, mas o corte), oferecido por uma índia (ou descendente de…) que reside há anos na montanha. Confesso que aproveitei a oportunidade para me submeter à arte e técnica da cabeleireira, também para ver onde é que “o bicho pegava”, pois havia anos pensava em desbastar minhas (oh…!) madeixas. Saí não de todo insatisfeito com o corte, não com as observações “xamânicas”. Mas dei-me por satisfeito com os poucos dólares ali aplicados. Em tempo, o absurdo de que a indígena cabeleireira cortava o carma junto com o corte de cabelo foi ouvido depois do corte. Ouvi da índia “estás un poco solito, né, Adám”, o que facilmente se depreende de minhas atitudes não exatamente anticelibatárias, mas certamente gregárias.
Finalizando, lembramos a humorística asserção atribuída a Sócrates: não se preocupe: se você casar ou não casar, vai se arrepender do mesmo jeito.
Por hoje é só, pessoal – that’s all folks.
