a rua e a lua
Abrimos este texto com um singelo poemínimo:
Solidão
Em noite de prata
na rua, fitando a lua
uiva o vira-lata.
Esse haicai, poema de origem nipônica aqui submetido às formulações do poeta modernista Guilherme de Almeida, relaciona um dos mais profundos sentimentos com uma das imagens mais significativas, ambos explorados pelo Romantismo, escola de índole subjetivista que tinha seu alicerce na mais pura e intensa expressão das emoções. Assim, os românticos cultuavam a noite e a lua como símbolo de transcendência do eu para o outro, do sujeito amoroso para o objeto de amor, quase nunca consumado e, pois, sempre à espera… espera… espera… Assim é que também servia à corporificação da imorredoura nostalgia do paraíso perdido, tema ao qual dedicaram especial interesse escritores e poetas da estirpe de John Milton, e que freudianos traduzem como experiência oceânica da unidade, e outros lhe conferem outros nomes: shangri-lá, horizonte perdido, utopia, neologismo criado pelo filósofo inglês Thomas Moore, denotando lugar que não existe (ut, inexistente; topos, lugar), Nova Atlântida, do filósofo Francis Bacon, A Ilha, de Aldoux Husley, com a utopia “A Ilha” e a distopia “Admirável mundo novo”, e assim por diante.
O poema-epígrafe que abre este artigo dialoga com este, de Cassiano Ricardo:
Serenata sintética
Rua
torta.
Lua
morta.
Tua
porta.
De onde também ganha importância a imagem visual do poema, já que a própria disposição das palavras na página sugere a tortuosidade da pequena rua, e os fonemas “t” e “r” são a imagem sonora dos passos dados na pequena rua calçada no caminho e caminhada até a casa da pessoa amada.
Quase misteriosamente, a lua exerce sua influência no comportamento humano, e animais parece não ficarem imunes a ela, a lembrarmos da implícita figura do lobo solitário e dos arroubos românticos e do culto à noite e dos proverbiais lunáticos etc., adjetivo derivado de lunae, luna, lua.
Mas a contraposição rua/lua não se deve tão somente à proximidade fônica e gráfica entre ambas, ou seja, escrita e pronúncia, rima. Visualmente, a relação entre a lua e a rua é um círculo flutuando por sobre uma linha, esta ainda representativa da linha do horizonte. Em recuo suficiente, o círculo torna-se um ponto, que, flutuando no vazio acima da linha, conforma no plano um triângulo com vértice pra cima e, se lhe acrescentarmos as outras dimensões, teremos uma pirâmide.
E na pirâmide temos a representação do escalonamento social, do determinismo cultural e demais influências e paradigmas vindos do alto e reverberando nas camadas mais baixas. Ditaduras unigênitas verticais que antes fertilizavam impositivamente o amplo solo das gramíneas humanas hoje precisam se render à inevitável evidência do sentido reverso, em que a rua fala e faz mais o que quer e menos o que desquer.
Se antes se podia valorizar a imaginada e almejada luminosidade dos páramos utópicos, hoje se pode concluir por uma gênese reversa, em que o efeito precede a causa e o que era virtual se torna cada vez mais real.
Pois é, poesia…
