Tem certas afirmações que são repetidas em certos meios e que assim o são porque ao que tudo indica parece que ninguém entende do que está falando. Uma delas é essa história de matar o ego. Acho que muitos acham que entendem. Eu também acho. Será? Serei?
O vero do verso do verbo é que o tal do ego é, nada-ninguém mais/nada-ninguém menos que o eu, esse serzinho nosso de cada dia(!), hora(!?), minuto(?), segundo (?!) – esses pontos em gradação porque parece que o eu/ego não está presente o tempo todo com a e/ou a mesma intensidade de ser. A verdade é que nem sempre somos onde estamos, nem estamos onde somos, pelo menos não com toda a intensidade de que somos (capazes).

É o caso de quando somos pegos em flagrante delito, flagra que não deleita e que preferíamos deletar. Certa vez, menino, fui pego colando numa prova de matemática. Doze anos de idade, segunda série ginasial, pequena escola de cidadezinha do interior. O professor me olhou com aquela cara de canibal faminto, e achei que eu, Adão, era mesmo o responsável pelos pecados do mundo. Fiquei aceso, alerta, olhando para todos os lados. Fiquei tão acordado que naquele dia não consegui fazer nenhum acordo com nada. Entre bater no vilão e aplaudir o herói, fiquei mesmo com as bolas trocadas.
Não creio que a coisa fosse assim tão vermelha, mas a idade e a distância me autorizam colorir com os matizes e intensidades que o metal/mental que me resta me autoriza. Aliás, uma das coisas mais gostosas que o tempo de vida nos faz fazer é palavrizar o passado ou passadizar a palavra, repalavrizando e repassadizando (repassa-dizendo).
Mas voltando à questão do ego: todo ego é cego, quando a mente mente. Aliás, muita vez ambos são sinônimos, irmãos gêmeos, e se tu não geme-os, nem sempre te a-tendem do jeito que te melhor-é. Mas sem essa de matar, mas de meter o ego, motor de todas as tuas metas, matas, mitos, motos (saudades da minha Shadow, 750, preteada, “The shadow knows”). “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo” – coitado de Deus e do próximo… com esse amor tão débil… Tenho debitado e debilitado.
| neurose em terra de egos quem tem olho é caolho |
