Um cemitério longe demais
Certas coisas são tão desimportantes, que sua única importância é serem desimportantes, isso porque importa saber que toda importância só tem a sua confirmação externa se tiver nossa confirmação interna.
Às vezes há um híbrido de duas coisas, uma importante com uma desimportante. Uma delas é a morte, a importante; a desimportamente é o sepultamento, preocupação mesmo involuntária dos que ficam.
Conheço um casal que, um dia, os dois preocupados com esse binômio, não deixar muita preocupação pros que ficam, etc., custos, funerária, etc., resolveram comprar um jazigo. Ficaram ambos de pesquisar, cada qual, e o fizeram. À noite, no outro dia, à mesa do jantar, o assunto em pauta, misturando amor dos que ficam à morte dos que vão, num “não deixe que amor-te chegue assim”, como tive ocasião de ilustrar em outra parte do meu site.
Mas, voltando à discussão dos dois, revelou ela que encontrara uma sepultura a preços bem convidativos, mesmo que para algo nada convidativo, nem com vida ativa. Ao revelar o local do descanso eterno, o cretino diz com objeção: esse cemitério é muito longe.
Não pude conter o riso, em arrivada gargalhada. A coisa era séria. Seria talvez fosse outra coisa de somenos importância. Mas não. E o maior absurdo é que ele não percebia o absurdo do que dissera.
Respondi, em lugar da amiga. Qual é a importância de o cemitério ser longe demais? É porque você todo dia ao fim do expediente vai morrer, precisar ir lá longe, e no outro dia desmorrer, e vir para longe. É, mesmo, um problema mortal. Disse-lhe: você tem razão. Afinal de contas, tua intenção está de acordo com o significado de cemitério, que é, poucos o sabem, dormitório ou lugar para dormir. Também não é à toa que grandes poetas e escritores relacionam morte e sono. Shakespeare, no famoso monólogo de Hamlet: “morrer, dormir; dormir, talvez sonhar”. Ernest Becker, com o aclamado “A negação da morte”, ganhador do Prêmio Pulitzer. Olavo Bilac, com o poema “No meio do caminho”, e assim por diante. Finalizando, uma piada.
Num teatro, peça de teatro em cena, um expectador dormindo na platéia. Na fila de trás, um senhor, incomodado com o sono do outro, toca-lhe o ombro e diz: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O outro parece nem notar. Repete o incomodado, novamente tocando-o no ombro: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O outro parece acordar, mas insiste o chato: O sono é o prenúncio da morte – William Shakespeare. O ex-sonolento responde, irritado: vá pra puta que o pariu! – Jorge Amado.
Não sei qual dos dois eu represento.
