
Jamais se pode subestimar a importância da mediocridade. Mesmo sob a superfície da história, médios, medianos e medíocres cumprem seu papel de manter e preservar o status quo, quer dizer, deixar as coisas como estão. E essas forças reacionárias têm sua existência justificada, porque substituíram o perigoso anseio de que as coisas melhorem pelo confortável receio de que piorem. E por certo não faltarão reacionários que, ao serem tratados como tais, achar-se-ão revolucionários, confundindo esse termo com reação, esquecendo-se de que a ironia permite ler reação como ação repetida, a reiteração da mesmice, ou, de modo mais sofisticado, o misoneísta horror à outridade (descobri, por acaso, a palavra misoneísmo, que, na Terra das Araucárias, adquire matizes bastante peculiares). Aqui, não faltam porta-vozes do já-consagrado-e-por-isso-inatacável, se hay desgobierno soy contra, o That’s incredible que, de incrível, só tem a excrescência da midiocracia, o savoir faire de quem só sabe fazer e refazer o já feito. São quixotescos generais que ainda travam batalhas já travadas e já vencidas, imemoriados que confundem memória com imemorial. Infaustos que receiam tudo quanto cheire ao mefistofélico espírito que tudo nega e contraria.
Resta o consolo de que tudo é passageiro, mesmo o motorista e o cobrador. “Aqueles que estão atravancando meu caminho, eles passarão, eu passarinho”, diz com gentileza o protesto do poeta.
Rei morto, rei posto. O velho deve morrer para dar lugar ao novo. O menino é o pai do homem. A midiocracia só admite a mediocracia da magiocracia, verdadeiro Mr. M que se propõe a desnudar as vestais da verdade cujas vestimentas já não passavam de rotas (derrotas) e surradas vestes. Maltrapilhos filhos que enfileiram como tesouros pilhas de tralhas e trastes e trapos.
Já se falou alhures sobre o papel das cortesãs nas cortes, sobre as galhofas dos bufões aos quais se permitia declarar mesmo a verdade mais escaldante amainada no humorismo dos trejeitos cênicos, sobre os homens de arte cuja genialidade desposou a bucólica simplicidade de camponesas cujos interesses não transcendiam a circularidade pragmática de meras 24 horas. É o mesmo pragmatismo que leva a mídia televisiva a espelhar o gosto popular, entendendo que seu papel é, mesmo, entreter, deixando aos intelectuais as intermináveis discussões sobre a função educativa da maior invenção do século vinte. Óbvio que, quando se alia entretenimento e cultura de modo inteligente, interessante e popular, melhor. Mas não se pode esperar que seja diferente do que é. Infelizmente, infeliz mente.
