A palavra utopia foi cunhada pelo filósofo inglês Thomas More, mediante a junção de dois prefixos gregos: ut, inexistente, e topos, lugar. Daí a acepção de lugar ou estado ideal, em que o poder instituído estivesse comprometido com o bem-estar de todos. Houaiss registra ainda que, por extensão, trata-se de: projeto de natureza irrealizável; quimera, fantasia. Desnecessário dizer, portanto, que utopia se refere, em última instância, ao que Pierre Weil denominou “nostalgia do paraíso perdido”, sentimento que tem sido expresso em várias obras ao longo do tempo, desde A República, de Platão, A Nova Atlântida, de Francis Bacon, O Paraíso Perdido, do poeta John Milton, Lost Horizon, de James Hilton, A Ilha, de Aldoux Husley, e outros. Na contramão, citem-se as antiutopias ou distopias: Admirável Mundo Novo, de Huxley, Animal Farm e 1984, ambos de George Orwell, O Processo, de Franz Kafka, Eu, Robô, de Isaac Asimov, dentre outros, e realizações cinematográficas como Blade Runner e The Wall, por exemplo.

Entre a utopia e a distopia, troca-se a visão de um proverbial paraíso idealista pela acachapante submissão a uma sociedade que elimina a possibilidade de fugir a tais imperativos. O sujeito se vê subjugado a um sufocante Big Brother a cuja vigilância onipresente nada nem ninguém escapa. Entre a esperança e o cinismo oscila o anseio humano, ou primeira se esboroa no cinismo, ao trocar o colorido da idealização pelo negrume da inexorável admissão da concretude de um mundo que nem sequer se denomina imundo.
Imundícies à parte, algumas fazem parte do mundo; entretanto, bastam as naturais e inevitáveis; as outras… que vão à…
Seja como for, sonhar é preciso; é a mínima riqueza que resta ao sujeito quando se lhe roubam tudo. E o compensatório post-mortem não sirva de consolo. Arte é preciso; enfarte só se inevitável. A palavra, amiúde, é tudo o que resta, quando a lavra não presta. A larva tem de cumprir seu destino de borboleta. Haja asas.
