O Texto e o Intertexto

O princípio da intertextualidade entende que todo texto é, na verdade, um intertexto, já que dialoga com textos anteriores. O termo foi criado pela filósofa e escritora húngara Julia Kristeva, e assume diversas acepções, já que designa várias modalidades de tratamento textual, entre as quais a citação, a tradução, o plágio, a paródia, a paráfrase, e assim por diante. Se é verdade que nenhum indivíduo é uma ilha, o mesmo se pode dizer de um texto. Entretanto, a aplicabilidade desse conceito fica algo aquém de sua máxima pertinência quando se trata do texto artístico. Isso porque, a nosso entender, o texto artístico, e mais especificamente o texto poético, não só dialoga com textos anteriores, mas participa da natureza de outros textos artísticos, como se dissesse a mesma coisa mas de outro modo. Não é à toa, portanto, que muito poeta, ao ler poema não de sua lavra, se sente inclinado a responder com outro poema. Por certo, o plágio, a paródia e a paráfrase, embora aqui se encontrem, nem sempre fazem jus ao texto original. Não obstante, não se pode negar que, quando se trata de textos e poemas traduzidos, há o risco (extremamente oportuno e bem-vindo) de a tradução ficar “melhor” que o original, embora na maioria das vezes fica aquém desse resultado.

Estamos pensando na tradução da obra As Flores do Mal, do poeta simbolista francês Charles Baudelaire, pelo também poeta modernista e acadêmico, brasileiro, Guilherme de Almeida. Quando a intertextualidade da tradução alcança esse efeito de igualar e, mesmo, “superar” o original, isso se deve sobremaneira à poeticidade do próprio tradutor, como se a reproduzir ou sobrepujar o original pela “recriação” do original. Toda tradução, na verdade, é a busca de uma “transcriação”, é, em última instância, uma leitura. Lembramo-nos aqui do texto de Jorge Luis Borges, “Pierre Menard, o autor do Quixote”, em referência à obra de Cervantes. Entre as questões que então se levantam está a da autoria e da coautoria de uma obra, podendo-se aqui recuperar a tese da leitura criativa e da apropriação de um texto; e acrescentamos, em coerência a essa visão, que todo autor é, na verdade, coautor de si mesmo, quiçá o leitor mais gabaritado do texto “original”. O escritor Umberto Eco chega a afirmar que, escrita a obra, todo autor deveria se suicidar, para não impedir a leitura. E chegamos mesmo a nos lembrar do que teria afirmado um escritor curitibano, ao ler uma tese de doutorado sobre sua obra: “você é muito melhor leitora de minha obra do que eu sou autor dela”. Cite-se, ainda, o cronista Fernando Sabino que, em palestra, teria respondido que não percebera que tinha escrito o que a interlocutora mencionara. Essas questões têm repercussão em duas outras que surgem em sala de aula: o que o autor quis dizer com isso? Será que ele pensou nisso?

À primeira pergunta, Paulo Leminski respondeu algo irritado: eu não quis dizer: eu disse! À segunda pergunta, cabe responder que o texto artístico incorpora elementos que não estavam presentes no momento de sua produção e dialoga com outras temporalidades, relegando a questão a segundo plano, levando-nos a concluir que, publicada a obra, em última edição, o autor não pode autorizar nem desautorizar qualquer leitura potencial, desde que isso incumbe ao próprio texto, e não a quem o enunciou. Finalizando, recaindo hoje a tônica mais na leitura do que na autoria, pode-se postular existirem três instâncias do texto: a) o que o autor quis dizer; b) o que de fato disse; c) o que o leitor entende. Essas três instâncias nem sempre se processam à supostamente pretendida perfeição. Per fas et nefas.

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