ABSURDISMOS
Há absurdos tão absurdos, que são mais do que absurdos: são também abcegos e abmudos. Este absurdo, mesmo, de absurdizar o próprio substantivo absurdo. Mas o absurdo está na moda, é, mesmo, um modismo. Está tão na moda, que se poderia criar um movimento, escola, tendência à qual se daria, pertinentemente, o nome de Absurdismo, à semelhança de tantos ismos já passadiços, passados e mal-passados. Classicismo, neoclassicismo, romantismo, realismo, modernismo, racismo, homossexualismo, taylorismo, capitalismo, terrorismo… e ismos… e ismos… e ismos… Fora os esnobismos, estrangeirismos, alcoolismos, tabagismos, bairrismos, ateísmos, teologismos, que nos obrigam, a todos, a nos submeter a verdadeiros contorcionismos verbi-voco-visuais, com o devido crédito ao que disse o Pignatary (o Décio), ele também representante de um tal-ismo, o tal concretismo, não taoísmo. Em tempo: catolicismo, islamismo, budismo, etc., que querem seus adeptos sejam, não relativismos, mas absolutismos.
Mas nesse movimento Absurdismo encaixaríamos tudo o que encaixado não se deveria encaixar: menores abandonados, abandonismo; a indústria da fome, raquitismo; os irremediáveis remédios, a política etílica e sem ética, os inominados que têm nome porém são inomináveis e, pois, abomináveis, os nordestes destes que não me destes, sem chuva, uva nem luva, as estatísticas estáticas não extáticas, e tantas outras práticas que por ética não deveriam ser postas em prática.
Desse Absurdismo estariam ausentes verbalismos, linguismos, logismos e neologismos, misticismos e espiritualismos, tudo o que contribuísse para o disse-me-disse, não-disse me disse, mas disse. O dissídio entre a palavra e a lavra e a lavra e a larva. Ora direis ouvir… Melhor que ouvir é ouver, não ouvir ou ver. Ambos os dois conjuntamente juntos mutuamente unidos numa unidade de um só. Ora, pois. Ouvir estrelas… melhor ouvê-las, com o perdão do Bilac (o Olavo oliva).
Só com toda essa (e quisera mais que mera quimera) transgressão verbal talvez se possa insinuar o que nem à mente amente se insinua: o absurdo do absurdo que, talvez por isso mesmo, o desabsurdiza, id est, Reductio ad absurdum. Rest in peace, requiescat in pace, descansa em paz, meu rapaz. O que me lembra um poemínimo contestador, em homenagem a alguém que nem menção merece: posso dizer o que eu acho, meu rapaz: és capacho, não capaz. E quem o queira aplicar a quem não o queira, sinta-se autorizado. Deveras…
E aqui desfilam filiações, filias, iron men e ironias. Dinheiro na cueca, 51 milhões apartados em apertado apartamento, pasta só com um mísero 1% um por cento dessa cifra indecifrável, “eu não sabia que não saber não me isenta da pena de não saber”, o verdadeiro poder se refugia numa instância superior quando se lhe questionam ditos e ditames, personagens se despersonalizam por imersão num limbo amorfo de uma espécie de Personalidade Suprema, poder, enfim, que ante a inexorabilidade da morte pretende, sem poder superá-la, surpresá-la. Tanto barulho que deixou surdo o bagulho. Por hoje, arrulho.
