Aliados negativos

OS ALIADOS NEGATIVOS

A sexualidade é uma experiência tão intensa para o gênero humano, que a natureza torna sua expressão quase compulsória e inexorável. Isso em consonância com o primado do corpo sobre o saldo restante da expressão integral da totalidade psicofísica do homem. É inegável que a importância que a natureza determina para essa função instintiva é de tal monta, que se se lhe pode atribuir o máximo grau de compulsoriedade a que se está sujeito pela mera condição de existir.
Isso posto, não seria de todo inexato estabelecer conexões entre essa e outras funções vitais psicossomáticas, na pressuposição de que a compartimentalização e/ou segmentação da totalidade do indivíduo carrega em si mesma algum grau de arbitrariedade.
Efetivamente, se entendermos, com Kant, Peirce e outros, que tudo é representação, e, com a Dra. Marie Louise Von Franz, que as chamadas “projeções” também se aplicam aos objetos inanimados, maior razão teremos em considerar os chamados “aliados” como representações de nossa natureza instintiva, animal, primitiva. Essas representações, obviamente, manipuladas pela cultura moderna, em contraposição às culturas ditas primitivas, sofrem a interferência da sociedade “moderna”. Aspas em “moderna” porque, não obstante os avanços tecnológicos, pouca evolução tem sido efetivada na consciência e personalidade do indivíduo contemporâneo. Essa introdução porque pretendemos tecer algumas considerações sobre tendências de índole xamânica e, portanto, animistas, que veem nessas manifestações do inconsciente, não representações de nossa natureza instintiva, mas realizações concretas de animais reais e, também, míticos. Quando entramos em contato com algum animal, seja mediante contato real, por meio de imagem, fotos, etc, e a imagem deste fica impregnada em nossa mente, é porque ele tem um significado especial para nós. O significado, porém, se mescla aos significados atribuídos pela cultura, e com esta interage.
Sucinta e genericamente, essas representações são simbólicas de nossa constituição biopsíquica. E aqui estão em jogo nossas crenças que, a despeito de como as encaremos – se como crenças ou como verdades -, terão sua legitimidade à medida que influenciam e influenciem nossa vida. Aqui é de lembrar o psicólogo Carl Gustav Jung, que assevera não importar se a informação provém da realidade ou de nossa imaginação, pois somos afetados do mesmo jeito. É de lembrar ainda Osho, que, respondendo a um discípulo, afirma ser importante o efeito que a crença neste produz. E, para arrematar, a Ordem Rosacruz: Não importa se você crê ou não crê, pois isso em nada afeta a natureza dos fatos.
Considerações à parte, pretendemos tecer algumas considerações sobre os aliados ditos negativos, assunto que tem passado ao longe das análises de tantos quantos se detêm no tema. É no mínimo curiosa, para não dizer paradoxal ou irônica, a denominação “aliados negativos”. A própria acepção de aliado rejeita o qualificativo de negativo, e aqui talvez coubesse pesquisar a gênese do termo aliado, seus significados e usos ancestrais. Seja como for, lembrando Jung mais uma vez, afirma o pesquisador que, quando sonhamos com algum animal, é porque precisamos integrar qualidades desse animal em nossa personalidade consciente. E a linguagem dos sonhos é, efetivamente, um modo de entrarmos em contato com nossa natureza primitiva, i.e., com nossos aliados.
Mas sobre os aliados negativos, aqui se encontram os “animais” que a experiência primordial que todos carregamos nos ensinou a temer. Estamos nos referindo, especificamente, aos répteis.
Os répteis representam a nossa natureza mais primitiva e ancestral, de quando ainda despontavam os primeiros raios da consciência na constituição humana. Rastejantes e silenciosos, tornaram-se temidos, ameaçadores. Ademais, ligam-se ao aspecto reptiliano de nosso cérebro, e são representativos dos aspectos sombrios da psique, ao arquétipo a que Carl Jung denomina Sombra. Os répteis não são domesticáveis; são silenciosos e sorrateiros e, portanto, perigosos. Vivem à beira dos rios, e se relacionam com as estruturas reptilianas de nossa constituição cerebral. Desse modo, são inconscientemente associados aos aspectos sombrios de nossa natureza biopsíquica, e precisam ser dominados, controlados, porém não eliminados. Estão ligados ao arquétipo denominado de Sombra, pelo citado autor. Precisam ser, portanto, integrados ao consciente, tarefa que exige extrema cautela e cuidado, e sinceramente não conhecemos ninguém apto a fazê-lo. E aqui recomendamos a leitura de dois livros: “Ao Encontro da Sombra”, coletânea de artigos de vários autores junguianos, e “A sombra e o mal nos contos de fadas”, da discípula de Jung, Marie Louise von Franz.
A respeito da Sombra, Jung e Franz e inúmeros psicólogos de afiliação junguiana fazem ver que, sob a superfície da personalidade consciente, encontram-se os atributos e aspectos mais repugnantes de nossa constituição biopsíquica. Esses conteúdos, por serem rejeitados pelo convívio social, são “varridos para baixo do tapete” do consciente, sempre à espera de oportunidades de se manifestar. Quanto mais reprimidos, maior energia acumulam e, assim, conseguem burlar a censura do consciente. Suas manifestações mais imediatas e palatáveis, são verbais, na forma de chistes, bromas, ironias, sarcasmos, e tais expressões orais certamente cumprem um papel de desrepressão e, portanto, produzem limpezas catárticas que nos propiciam relacionamentos mais francos e honestos com nós mesmos. Aqui temos a cumplicidade do que Jung chama de Persona, a máscara social de que nos revestimos para encobrir os aspectos socialmente reprimidos da Sombra.
E o confronto com a Sombra é extremamente perturbador. Representações e analogias abundam na literatura mundial. Obras e personagens como o Fausto, de Goethe, Dr.Jekyll e Mr. Hyde, de Robert L. Stevenson, Dracula, de Bram Stocker, são bem representativas. Citem-se ainda a narrativa bíblica do encontro de Sananda com o Tentador no deserto, experiência que encontra paralelo com a experiência do Buda Gautama sob a árvore Bodhi antes de atingir a Iluminação.
Trata-se, portanto, de um confronto inevitável e necessário, que nos põe em contato com nossa finitude e desamparo, experiência de que nos protegemos pela desindividuação propiciada pelo grupo religioso, místico, esotérico, xamânico, etc., a que nos ligamos e liguemos. A proteção, porém, não perdura. Não é possível ficarmos todo o tempo e o tempo todo sob o pretenso manto do acobertamento cúmplice do grupo. Cedo ou tarde os véus vão sendo removidos pela inexorabilidade da dinâmica da própria autodescoberta. Felizmente, embora não a princípio. Isso porque não se deve deixar-se subjugar numa passividade amorfa. Há que se usar os atributos da Sombra como instrumentos de crescimento.

Por hoje é sol, i.e., sombra.

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