A releitura do quadro acima, à direita, ao trocar o previsível carneirinho pelo imprevisível dinossauro nos leva a refletir sobre o propalado amor incondicional. Cabe a pergunta: o amor, em tese, não seria, forçosa e necessariamente, incondicional? Se condicional, é (seria…) amor?
A amor incondicional se contrapõe, obviamente, “amor condicional”, e aqui talvez coubesse melhor amor “condicionado”, nas duas acepções: a que se volta para o objeto do amor e a que se volta para o sujeito que o manifesta, este último reverberando a noção já defendida de que todos sofremos condicionamentos, i.e., todos somos condicionados, afirmação que dificilmente pode ser contestada.
Efetivamente, desde a (e antes da…) experiência pavloviana dos reflexos condicionados, a questão parece resolvida, e o ponto que se coloca é a reversão da causalidade, segundo a idéia prenunciada por Jung em sua obra “Sincronicidade, um princípio de conexões acausais”, e abordada pelo pesquisador indiano Amit Goswami em “O universo autoconsciente”. Sucinta e explicitamente: o amor pré-existe e só fica à espera de um objeto para se manifestar? Goswami propõe uma reversão da causalidade, em que o futuro influenciaria o presente, a causa advindo do efeito, e não o precedendo.
Esse raciocínio tem algo de transcendente, mais em acordo com a tese da atemporalidade, a perspectiva da simultaneidade e não da sequencialidade, em consonância com a psicologia pragmática de William James, que postula ser a emoção posterior à reação do organismo, e não o contrário. Exemplificando, a hipótese de James entende que, se virmos, por exemplo, um leão solto vindo em nossa direção, nós não fugimos porque temos medo, mas temos medo porque fugimos. Essa tese de James, ele mesmo colocava em cheque, quando se dizia “quase convencido” de sua veracidade. Contudo, num mundo em que os paradigmas científicos tradicionais estão sendo contrariados, não é de todo inadequado considerar a verossimilhança dessa asserção do pesquisador britânico.
Feita essa digressão, cabe explicitar questões subjacentes à idéia de amor (in)condicional. É imutável e ilititado? É verdadeiro? Exemplo seria o amor dos pais pelos filhos, ou, mais especificamente, da mãe, o proverbial amor materno? E amar o outro implica amar a si mesmo? E o amor a dois, a despeito das configurações dos casais? É verdade que “quem deixa de amar, na verdade, nunca amou”? E o amor feminino é diferente do amor masculino? E as mulheres que amam demais? E o que dizer das projeções do amor romântico mencionadas por Freud? E quem diz amar o amor não está se esquivando de expressões concretas desse sentimento? Trata-se, mesmo, de um sentimento ou de um conjunto de sentimentos? O amor existe por si só ou requer um objeto para se manifestar? É simples ou complexo? Quando exige algo em troca, é, mesmo, amor? Existem graus e qualidades amorosas? É imorredouro e transcende a morte? E a oposição amor – ódio não seria, talvez, melhor expressa como amor versus medo? E o amor a Deus, à vida, ao universo, ao infinito? Qual a relação entre amor e humor, amor ao outro e amor a si mesmo? E o que dizer da paixão (não nos esquecendo de que paixão vem de “pathos”, i.e., doença, sofrimento, “patologia”)? De onde também “compaixão”, Paixão de Cristo…
São todas questões implícitas nesse estado de espírito ou de consciência tão almejado e buscado. Afinal, como dizem os místicos: o amor é a lei. Finalizando, cite-se Osho, que afirma ser a mesma energia que, no plano instintivo, é sexo, no plano humano, é romance, no plano espiritual, é prece.
Preceito sem preconceito.
