É possível x pode-se

É possível afirmar x pode-se afirmar
Hoje retomo minha coluna CORRETANDO, para discutir um uso linguístico algo inadequado. Trata-se da alternância no uso de “é possível…” versus “pode-se”, aplicáveis aos verbos de dizer, a exemplo de afirmar.
Quando se diz “(1) é possível afirmar”, a tônica da ação recai sobre a possibilidade; quando se diz “(2) pode-se afirmar”, a tônica da ação recai sobre o sujeito indeterminado, implícito no pronome “se”, ou seja, “alguém, todos, alguns”, indeterminado, pode afirmar. Observe-se que “(1)”, “é possivel afirmar”, denota um âmbito virtualmente infinito, já que o branco do papel admite qualquer tipo de afirmação, por mais absurda, incomensurável, inaceitável, etc., que seja. O mesmo não ocorre com “pode-se afirmar”, já que o sujeito aí implícito vai ser, inexoravelmente, finito, a menos que se refira a Deus ou…
Compliculismos textuais à parte, ambas as formulações – (1) e (2) – cumprem a função de diluir, parcialmente ao menos, a responsabilidade por aquilo que se está afirmando; entretanto, (2) traz implícito como que um pedido de autorização para afirmar o que se vai afirmar, já que, como já afirmamos, a tônica da ação, a “responsabilidade” pela afirmação, recai no sujeito, em tese, indeterminado, que, embora gramaticalmente indeterminado, pragmaticamente não o é, pois indica o autor do texto que se está lendo.
O uso de “é possível…” x “pode-se” responde pela modéstia que em geral se espera de um texto acadêmico; é quase um pedido de desculpas antecipado. O absurdo, porém, é que a tal “modéstia”, tendo gerado o tal “plural de modéstia”, que substitui o “eu” pelo “nós”, pode se confundir formalmente com o “plural majestático”. Em outras palavras, por não admitir o uso do pronome pessoal de primeira pessoa do singular – “eu” -, o texto acadêmico passou a admitir o uso, implícito, de “nós”, e construções “chatas” como “estudaram-se vários textos”, “buscou-se analisar”, “pretendia-se averiguar”, etc., hoje dão lugar a “estudamos vários textos”, “buscamos analisar”, “pretendíamos averiguar”, construções mais “digeríveis” (e dirigíveis…, com o perdão do chiste).
Para finalizar, lembramos da letra de uma música norte-americana, gravada por vários cantores (e.g., Frank Sinatra, Perry Como, Elvis Presley…), denominada “It’s Impossible”. A letra diz, em tradução nossa (i.e., minha), coisas do tipo: “é impossível mandar o sol sumir do céu”, “é impossível pedir para um bebê não chorar”, etc. Ora, como a referência é ao próprio texto, não é impossível mandar o sol sumir do céu, nem pedir para um bebê não chorar. O que é certo é que nem o sol nem o bebê vão cumprir o que se lhes pede. A música, porém, termina com a conclusão: “…assim, também, é impossível viver sem o seu amor”.
Impossibilidades demais por hoje.

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