Zona de conforto x zona de acomodação

Zona de Conforto x Zona de Acomodação
O famoso verso de Shakespeare, que pergunta, “o que há num nome?” – “uma rosa, se tivesse outro nome, teria o mesmo perfume”, traz à baila o primordial interesse que desperta no homem a relação entre a palavra que nomeia e a coisa nomeada. Efetivamente, nem é preciso dizer, embora não sejam a mesma coisa, na mentalidade algo infantil de muita gente ambas se confundem e fundem. A representação se torna ação; o boato ato, fato e artefato; a palavra lavra e larva; o substantivo, substância e instância. Toque-toques na madeira após algo dito que não é bem-dito nem bendito, atores que sofrem agressões físicas na rua, de gente que não os distingue dos personagens que eles interpretam, os proverbiais tabus linguísticos que levam à criação de dezenas de eufemismos, etc., etc., são indícios de estagnação na fase de aquisição da linguagem, etapa do desenvolvimento da personalidade em que “todos” deveriam deixar de tomar a linguagem pela realidade. Mas não é isso que acontece, e essa etapa não superada talvez explique em parte por que o Brasil está se tornando o país da mordaça, que torna a fala pura e simples, de mera expressão verbal, em crime. Talvez subjacente a isso esteja o temor de que a virtualidade do dito se converta na concretude do feito, e transforme a verbalidade do boato em realidade do fato.
Tudo isso está implícito na vigente preocupação com o “politicamente correto”, e a questão que aqui se pode levantar é em que medida essa preocupação, que não vai tão e muito além da pura verbosidade, quiçá verborragia, em que medida essa preocupação não serve para mascarar o próprio objeto designado, como se mudar o nome atribuído a algo mudasse o próprio algo, algoz mesmo. Assim é que o delinquente juvenil se torna o menor infrator; o sonegador de impostos, depositário infiel; o presidiário, interno ou apenado, e a penitenciária, casa de custódia. Favela deixou de o ser, hoje é comunidade, e um programa matinal na TV tinha um quadro com o nome “Beleza na Favela”, depois rebatizado de “Beleza na Comunidade”, e ficamos pensando que a inteligência televisiva desconsiderou um ofensivo “Bela da Favela” porque a rima, ao acentuar pela identidade fônica, i.e., a rima, deixava entrever, entreler ou entreouvir a suposição de que seria surpreendente haver em tal espaço urbano expressões estéticas dali destoantes, surrealismo, mesmo. Esforços louváveis a quem de direito… mas e de fato…?
Já se disse alhures (Mallarmé e outros): quando se dá nome aos bois, corre-se o risco de perder a própria boiada. Mas o versa-vice também é verdade (caetaneando velozicamente): “o avesso do avesso do avesso” desconfirma “o avesso do avesso do avesso do avesso”, isto é, ou seja, em outras palavras, ou melhor, i.e., melhor dizendo, em suma: a realidade nua e crua é maquiada pela verbalidade vestida e travestida. Hoje, favela é comunidade; penitenciária, casa de custódia; toxicômano, drogaadito; presidiário, interno; marginal, excluído, etc., etc. O paradoxo da palavra é que, ao mesmo tempo que ela revela, também esconde; mas para quem sabe rever e reler, ao mesmo tempo que ela esconde, também revela. E as entrelinhas se tornam cintilantes estrelinhas, a nos lembrarmos da saudosa Clarice Lispector: “Já que se há de escrever, que pelo menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas”.
Despoetizando, não nos devemos incomodar com a zona de conforto, mas com a de acomodação. “Pensar fora da caixinha” só confirma que, dentro da caixinha, não é pensar, de modo que pensar é, pleonasticamente falando, fora da caixinha. É preciso trocar os impróprios móveis para fora do próprio imóvel, não apenas trocá-los de lugar dentro do imóvel.
Tudo isso para deixarmos implícitos os plágios e roubos. Para bom entendedor, meia palavra é mentira. A mente mente, infeliz-mente. Olho olha olho que o olha.
Por oje é ojeriza. Hoje riso.

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