ostra feliz

ostra feliz…

Outro dia senti-me quase ultrajado em minhas convicções ao ler, num texto que me chegara às mãos por incumbência de minha profissão, esta pérola: ostra feliz não produz pérola. O texto mencionava o autor da frase: Ruben Alves.

Ainda
injuriado, fui trocar umas ideias com um amigo, que, pela conversa, concordava
com o autor da frase. E eu repliquei, afirmando que, corrigida a frase, melhor
ficaria: ostra saudável não produz pérola. O texto que originara a discussão
fazia um uso bastante ideológico da frase, numa visão bastante limitadora e
avessa à tal da expressão “zona de conforto”, que, me parece, não se pode
confundir com a que proponho em resposta a esta, ou seja, zona de acomodação,
esta, sim, incomodativa.

Mas, para
metabolizar minha indignação, fui pesquisar, e descobri, para alívio meu, que o
autor da frase não era cretino, cheio de má-fé, com discernimento duvidoso e
mente deturpada por interesses escusos. Ruben Alves estava se referindo a si
mesmo, à condição de que o escritor precisa sentir-se instigado, desconfortável,
“infeliz” para se motivar a dar vazão à sua criatividade.

Não sei se
concordo plenamente com esse autor, mas sei que, falando de si mesmo, ele pode
achar e dizer o que quiser, afinal ele é dono do seu próprio discurso, ainda
que Foulcault e Bakhtin com ele talvez não concordassem.

Sendo eu também um profissional das letras, finalizo com este poema:

imerso neste
imenso mar de gente

às vezes
penso que meu verso onipotente

pode quebrar a corrente de tanta falta de senso

então paro, penso e percebo

que o feito máximo do meu verso

não passa de um efeito placebo

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