
Um dos capítulos mais fascinantes e, por isso mesmo, mais elusivos e cavilosos do caminho espiritual é o que diz respeito aos chamados Mestres Ascensionados. Não obstante possam representar o que Carl Jung chama de arquétipo do Self, o Si Mesmo, corre-se o risco de se projetar na sublime imagem que deles se faz o contraponto de nossa incompletude, carência essa que alhures recebe a sofisticada designação de inópia interior. Embora Jung assinale que o citado arquétipo do Self é representado por Jesus, é oportuno estender essa concepção a outros seres, desde que estes podem aqui e ali melhor representar nossos conteúdos internos.
A Ordem Rosacruz chama a atenção para o perigo do culto à personalidade, à possibilidade de desvirtuamentos e desvios do que chama de a Senda (Path). Entretanto, não deixa de mencionar um adágio que circula entre tantos peregrinos que se encontram no Caminho: Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece. Mas assinala também que o verdadeiro mestre é o Mestre Interior, cuja voz todos deveríamos aprender a ouvir, como os Sussuros do Self, Intuição, Voz Espiritual e denominações análogas.
Aos incrédulos a concessão de que a única certeza é a da própria existência, em cima da qual todas as outras certezas se constroem e se relativizam. Há, contudo, a inegável necessidade de crer, a irrevogável esperança do sublime, a sublimação de nossa materialidade, enfim. Se se deve concordar com a asserção de que viver é carecer, há também de se admitir que à vacuidade se contrapõe a plenitude, e de que a pré-existência da primeira implica a existência da segunda, em inextricável codependência. Se aos seres ímpares projetamos nossa potencial e almejada completude, talvez possamos extrair dessa mesma carência a força de que precisamos para caminhar, sempre sob a certeza de que somos, cada qual, e ao mesmo tempo, o caminhante e o caminho…
