Amor e humor/ hamor e umor

AMOR E HUMOR
Ao longo dos séculos o cristianismo católico tem demonizado o humor, em cuja vertente irreverente se dessacralizam personalidades que merecem admiração, veneração e, pois, respeito. Daí o preconceito contra a alegria, refletido em adágios como “muito riso, pouco siso”, amiúde associada a leviandade, tolice, falta de juízo. Daí também a noção de que a sisudez (de siso) é sinônimo de seriedade, quando na maioria das vezes é apenas expressão do neurótico medo de soltar as amarras a cuja tirania submetem tua liberdade, já que o riso solta, liberta, libera. Na contramão, há o adágio “rir é o melhor remédio”, o que talvez aponte para o papel terapêutico do riso, uso que tem sido introduzido no tratamento de crianças hospitalizadas. Diga-se ainda que o riso devolve a lucidez perdida, e que, ao contrário do que se é levado a crer, quanto mais desperta espiritualmente a pessoa, tanto maior humor apresentará. Sobejam exemplos dos grandes luminares da humanidade: Jesus, Buda, Osho, etc. O bom humor de Jesus é escamoteado por aqueles que se apropriaram de seus ensinamentos, com o intuito de submeter, condicionar ou, drasticamente, escravizar. Daí ter sido a alegria banida dos drásticos espaços eclesiásticos, não plásticos nem elásticos. Obviamente, cremos, a referência é ao humor solidário, não sarcástico. Exemplo do espírito humorístico de Cristo Jesus está no trocadilho que fez com o nome de Pedro. Como Pedro significa, em latim, justamente “pedra”, diz o Mestre que faria de Pedro a pedra fundamental de sua igreja. Exemplos análogos podem ser colhidos da vida de Buda e Osho. É sabido que Gautama proibia seus discípulos de fazerem milagres. Consta que um deles, em decorrência da meditação a que se entregara, começou a levitar, e Buda disse: continue meditando que isso passa. De Osho são incontáveis os exemplos registrados pelos discípulos. E aqui temos o humor em sua função de didática espiritual e espiritualizante, já que o mestre indiano inseria sempre em sua fala oportunas expressões de humor (piadas, chistes, trocadilhos…), as quais sempre vinham ao encontro de suas exposições e auxiliavam na compreensão intuitiva do que ele pretendia comunicar. E a eficiência da técnica fica confirmada no riso produzido, já que a maior prova de que alguém compreendeu um texto pela extrapolação da fria materialidade da palavra é quando consegue rir pela apreensão intuitiva e inextricável do sentido.
E assim como o amor o humor tem um mistério. Não obstante o quase atávico interesse que despertam, estão longe de ser compreendidos. E sua relação não se configura apenas na materialidade da rima, mas na matéria-prima de que se constituem, já que ambos liberam e libertam, são sagrados, transcendentes, pelo menos levam à extrapolação dos costumeiros limites a que estamos sujeitos na faina cotidiana.

Mais especificamente sobre o humor, o efeito que dele sempre se espera, o riso, é antevéspera do sagrado: primeiro vem o riso, a seguir o silêncio, e então o sagrado. O riso provoca uma espécie de higiene espiritual e nos faz transcender nossas crenças. Estamos nos referindo ao riso solidário, não ao tendencioso, embora a maior densidade deste também tenha o seu lugar. Finalmente, três obras inaugurais que discorrem sobre o humor: “O chiste e suas relações com o inconsciente”, do psicanalista Siegmund Freud, “Os humores da língua”, do linguista Sirio Possenti, e “O riso”, do filósofo francês Henri Bergson. A todos boa leitura; o bom riso fica para depois.

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